Granta Portugal 3: CasaGranta Portugal 3: Casa by Carlos Vaz Marques

De que me serve ser anterior à última coisa de que me lembro?

A revista Granta, no seu número três da edição portuguesa, publica um inédito em prosa de Ruy Belo. Esta é a minha leitura.

O texto abre com uma sombra, um prenúncio de morte. Foi um verão exaltante até que nos plátanos do grande largo começou a pairar uma ameaça de morte. A exaltação do verão reforça esse lado sombrio, tal como, mais à frente, escreve: O primeiro sol raso atirava-me a sombra das árvores contra os olhos… A luz que esconde, o correr das horas limite, noite, madrugada, apaixonar-me pela missa às seis e meia da manhã, verão e inverno. Como se o tempo fosse um discorrer caótico, dotado de ininteligibilidade, fechando-se em círculos, um tempo parado como o da infância. Existimos num tempo fora da nossa memória? Que fizemos nessa noite? Já não sei bem. Houve muitas coisas que morreram.

Manaíra Aires Athayde, numa análise muito bem conseguida e publicada no artigo seguinte, alerta-nos para os elementos recorrentes na escrita Beliana, «está sempre citando palavras de outros, catalisando em sua obra versos e fragmentos de versos, imagens, cenas e figuras, ao passo que também está sempre citando a si próprio». Sobre o tempo, situa-o na memória de infância, das «tantas coisas que eram.» São pistas importantes para melhor compreendermos este texto.

A infância é esse lugar de memórias felizes: a praia, as férias, o Natal, os animais com que brincamos e a aldeia, aqui invocados, não como elementos apaziguadores, mas como luz que projeta sombras na nossa direção. Chega-se a elas já noite alta. O cão de pelo amarelo cúmplice na morte do gato. Espreitar a infância com memória de adulto, o verão impossível de que nos fala Ruy Belo. Surgem personagens que são o carpinteiro do estaleiro, o guarda-fiscal, o motorista do senhor rico, gente que sempre existiu, tal como as suas profissões sempre existiram, gente intemporal resgatada a escritos anteriores, marginalmente homens ou mesmo homens. Porque fora da morte tudo fica por consumar.

Este é um texto inacabado, sem título e ao qual falta um ponto final na última frase. As construções humanas em choque com os elementos da natureza, as mais ousadas chegam quase a pisar a fímbria das ondas, a desafiar o mar em dias de inverno, a sonhar os territórios da felicidade possível. Sem mais, nem mais.

Depois deixávamos os pés marcados na areia virgem junto ao voo das aves

 

 

 

 

 

 

 

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