O que nos Separa dos Outros por Causa de um Copo de WhiskyO que nos Separa dos Outros por Causa de um Copo de Whisky by Patrícia Reis

Desculpa.

Um bar em Macau. Um homem sozinho num bar em Macau discorre sobre a sua vida como se a mulher que está do outro lado do balcão o escutasse. Tem por companhia um copo de whisky e acredita que o move o propósito único de se salvar. A empregada, do outro lado do balcão, é o seu alvo, a sua possibilidade de acalmia; o horizonte limpo, as nuvens sem água.

Após uma breve deriva erótica – o meu calor no teu calor-, cria um certo distanciamento. Inventa-lhe histórias, confere-lhe um mundo próprio, um lugar a que pertence e onde uma vida a espera. Faço de ti uma personagem com facilidade e não me esmero para te dar alegria, lamento. Reinventa-a no momento em que reclama para si um pouco de atenção, numa relação assética que nunca se afasta do distanciamento virtual.

Desculpa, é a primeira palavra desta novela, atitude de quem timidamente inicia uma conversa que sabe intrusiva, de quem receia incomodar. Não espera respostas, nem pretende ser entendido, a barreira da língua assegura-lhe essa reserva de intimidade. Um ser escutado sem ser ouvido. Pouco mais lhe pede, adormecido em expectativas ausentes que não afectam ninguém. Só ali, em Macau, com um copo de whisky na mão isso é possível, ali ou em outro local qualquer onde fosse mais um homem com um copo de whisky na mão.

Tarde demais, é a nós, os seus leitores, a quem se dirige. Somos os guardiães do ónus final da sua salvação. Não se estabelece uma relação de intimidade, daquelas em que se termina as frases um do outro. Não chegamos a saber o seu nome, apenas lhe ficamos a conhecer os que lhe morreram e a sua obsessão por verificar a veracidade das citações. Este homem, que mantém um diálogo surdo com a empregada do outro lado do balcão, aponta a si próprio a virtude de ser silencioso. Falar a alguém numa língua que lhe é estranha é uma forma de se manter calado, uma ruidosa forma de mudez. Recorda uma namorada que era quase surda e que sabia ler nos lábios. Ler nos lábios. É outra forma de ser leitor.

Oriundo de uma família matriarcal, dominada pela mãe e pela avó, com um irmão de sexualidade indefinida e que gostava de cortar peças de tecido para fazer roupas, e um pai sem voz que um dia se fez ausente, casa com uma mulher que o domina. Uma mulher que compra as suas próprias prendas, um às da matemática, que permanecia de costas quando faziam sexo. Um copo de whisky sobre o balcão, uma bebida de homem, garantiu-me o meu pai. Fraca medida de masculinidade numa fraqueza repetidamente assumida: o whisky que faz de mim homem. Não se chega à solidão de um bar em Macau sem uma boa dose de perdas. Umas mais presentes do que outras. O irmão que, num momento aceita o diálogo e já convencido, acaba por escorregar deixando-se levar pelo vento, a água que se afasta e engole o corpo. A indiferença com que o destino nos trata. Apraz-nos o que a memória esquece, é um carinho que nos faz.

A linguagem envolvente de Patrícia Reis, remetendo para a oralidade, é de uma simplicidade enganadora. As metáforas apenas brilham nos contos que o personagem vai narrando à sua imaginária interlocutora. Uns olhos tão cheios de mar que faziam doer. Fora dessa “ficção”, a escrita não sendo plana, encontra uma maior contenção, uma mestria reduzida ao essencial e que se deixa seduzir pelo fascínio das ideias. Um ralo do mundo, tão inacessível como o chão do mar. Se conseguíssemos lá chegar, então tudo podia ser sugado para um buraco da galáxia.

Num bar de Macau um homem joga a sua salvação no único jogo que domina, o das palavras.
Serão as pessoas que não conhecemos gente sem história?

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