O LeopardoO Leopardo by Giuseppe Tomasi di Lampedusa

Neste romance acompanhamos a vida de uma família aristocrata da Sicília, na segunda metade do século XIX, em plena guerra de unificação da Itália. A saga começa em 1860 com os rumores do desembarque iminente das tropas piemontesas, lideradas por Garibaldi. O poder autocrático e feudal está ameaçado. No entanto, o príncipe de Salina saberá conduzir a sua família e o seu património por esses tempos conturbados, suportando o custo de abrir à burguesia ascendente o seu restrito círculo social.

Logo no início, o príncipe de Salina evita que a sua família fique isolada num dos campos de batalha, apoiando o seu sobrinho e afilhado Tancredi, quando este se passa para o campo das ideias revolucionárias. Tancredi não tem dúvidas quanto aos tempos que se avizinham e sobre o destino reservado ao reino onde nasceu: É preciso que tudo mude, se quisermos que tudo fique como está. Para a aristocracia que soube adaptar-se, a guerra fica reduzida a um esquema asséptico de forças que se bate num plano elevado, atirando todo o caos extremamente concreto e imundo dos campos de batalha para bem longe dos seus salões.

Apercebendo-se que, protegida a aristocracia, a mudança anunciada será feita à custa dos bens da Igreja, o confessor do príncipe de Salina, o padre Pirrone, protesta contra a aparente apatia do seu senhor. O príncipe justifica-se: Não somos cegos, caro padre, somos apenas homens.

Essa é seguramente a grande lição que Giuseppe Tomasi di Lampedusa nos deixa. Estamos todos presos a essa frágil condição humana e ao contrário da Igreja, a quem foi prometida a eternidade, aos homens apenas lhe é permitido um escasso horizonte temporal de existência ou até onde se estende a sua influência. A pouco mais se pode aspirar. Por isso o pragmatismo do senhor de Salina: Poderemos talvez preocupar-nos pelos nossos filhos, ou até pelos netinhos; mas para além do que possamos ter a esperança de acariciar com estas mãos não temos obrigações; e eu não posso preocupar-me com o que serão os meus eventuais descendentes no ano de 1960. A Igreja, sim, tem de tratar disso, porque está destinada a não morrer.

Igual falta de fé deposita o autor no destino colectivo dos homens e na sua capacidade para se libertar da sua condição de miséria. Muito por culpa própria, pois acham-se deuses. Os Sicilianos nunca hão-de querer melhorar pela simples razão de julgarem ser perfeitos: a sua vaidade é mais forte que a miséria.

A casa de Salina é a casa do Leopardo. Os animais, libertos de nuances espirituais tuteladas pela Igreja, são referidos como um exemplo dos valores mais nobres e intemporais. A sua dor, ao contrário da humana, é isenta de censura e, quando muito, dirigida contra toda a ordem das coisas. É a eles que o príncipe recorre para nos deixar o seu legado político. Quando recusa o lugar que lhe é oferecido no senado, despede-se do emissário com esta réplica: Nós fomos os Leopardos, os Leões; os que vêm substituir-nos serão os chacais, as hienas; e todos nós, Leopardos, chacais e ovelhas, continuaremos a julgar-nos o sal da terra.

Giuseppe Tomasi di Lampedusa acreditava no valor literário da sua obra e deixou-nos um testemunho lúcido sobre o destino dos homens numa escrita digna dos melhores clássicos. Sendo o príncipe de Salina um estudioso do movimento dos astros, o autor brinda-nos com este apontamento sobre os seus instrumentos ópticos. Os dois telescópicos e os três óculos, cegados pelo sol, estavam sossegadamente deitados, com a tampa preta sobre a ocular, bichos bem criados que sabiam que só lhes davam a sua refeição ao anoitecer. Ou no sóbrio apontamento sobre as capacidades intelectuais de um dos personagens: dava-se conta das coisas com lenta solidez. Um ou outro deslize, raros, como esta tirada literária de qualidade duvidosa: Na seda da parede, a sua sombra deitada desenhava-se como o perfil dos montes de uma serra num horizonte azul-celeste. Podemos acrescentar, em justiça, que Giuseppe Tomasi di Lampedusa não teve controlo sobre a edição da sua obra que apenas foi publicada após a sua morte. Aqui a D. Quixote usa a versão do texto que repetidamente e de forma controlada se crê estar mais próxima do manuscrito de 1957.

Termino esta leitura com este apontamento atribuído ao padre Pirrone:

Os grandes senhores eram reservados e incompreensíveis, os camponeses, claros e explícitos; mas o Demónio tinha-os na mesma presos no seu dedo mindinho.

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