Livro Sem NinguémLivro Sem Ninguém by Pedro Guilherme Moreira

Um livro sem ninguém, uma história contada a partir dos vestígios da presença humana, num trabalho entre o arqueólogo e o especialista forense. A história de uma batalha contada a partir dos seus despojos. Um chão de terra, sem poeira no ar. Um desafio que promete.

Na rua do Arco Celeste encontramos vivendas geminadas, prédios em forma de torres e uma zona verde com uma horta e um ferro velho. Convivem nesta rua os dois conceitos urbanos que marcaram a viragem do país para a modernidade proporcionada pela integração europeia. Neste livro não cruzamos com ninguém, apenas existem indícios a partir dos quais construímos tudo, tanto mais quanto a atenção com que se olha. Até os momentos da pequena intriga: O boato é que nunca as flores são deixadas sozinhas quando a florista fecha. A ação vai-se adensando ao longo dos meses em que esta narrativa está organizada.

Os objetos mudam de posição, surgem e desaparecem, guardando consigo a geografia dos acontecimentos. Não são a encenação de naturezas-mortas, registo da ausência da passagem humana, são a sua marca. Para além do exercício de escrita bem conseguido, o que se ganha em construir a ação a partir de objetos sem vontade própria e inertes? Consegue-se expor melhor os temas recorrentes da nossa existência, como a violência doméstica, traição e morte? Consegue-se imprimir um maior pendor poético à narrativa? Confesso não ter encontrado a resposta.

Pedro Guilherme-Moreira fez dos que saltaram das torres gémeas, no atentado do 11 de setembro, personagens do seu aclamado A Manhã do Mundo. Agora oferece-nos um livro sem ninguém. Sempre a colocar a fasquia num patamar elevado, deixa-nos um desafio particularmente intricado quando o género literário escolhido é o romance.

A única descrição direta da figura humana surge a propósito da estátua que é uma reprodução da partida de um casal jovem. Não se percebe se são emigrantes. Na contracapa é-nos dito que o romance usa o microcosmos da rua para desenhar o retrato da sociedade contemporânea. Uma afirmação que não corresponde ao olhar socialmente asséptico que passa ao lado do momento de austeridade que atravessamos, com a consequente perda de rendimentos e qualidade de vida. Mas, para terminarmos em bem, usemos as palavras do autor:

Ao longe, para lá da linha de luz das dunas, entra pelo mar dentro uma tira de luar que não chega ao horizonte.

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