A Festa da InsignificânciaA Festa da Insignificância by Milan Kundera

As nádegas amadas, reconhecê-las-ias entre centenas de outras. Mas não podes identificar a mulher que amas a partir do seu umbigo. Todos os umbigos são parecidos.

Este romance abre com um dos personagens meditando sobre o centro da sedução feminina. Está um belo dia de sol e ele sente-se inspirado pelas jovens que passeiam de T-shirt muito curta e calças de cintura descaída, deixando desnudado o meio do corpo. Vem-lhe à ideia que o umbigo nunca foi foco de pulsões eróticas. O que leva cada época a ter a sua orientação sensual? Teremos nós as respostas para a nossa contemporaneidade?

Os personagens cruzam-se neste livro com as suas pequenas histórias e as suas descobertas, discorrendo sobre as minudências que os vão intrigando. Os capítulos assumem a designação dos seus pequenos gestos que são uma festa de insignificâncias.

D’Ardelo dá a entender que sofre de um cancro terminal, ganhando a simpatia dos outros. Sente-se reconfortado. É admirado pela coragem com que enfrenta os seus últimos dias de vida, porque as frases jocosas e alegres tornam um homem tragicamente doente ainda mais atraente e admirável. Mais tarde alguém lhe devolverá a cortesia, fazendo acreditar que ele, D’Ardelo, terá conquistado a mulher mais bela da festa. Nada nos deixa mais felizes do que a generosidade de um galanteio, mesmo falso.

Alguém encontra num livro a referência à história das vinte e quatro perdizes. Uma caçada em que Estaline se gaba de ter matado, uma a uma, as vinte e quatro perdizes que se encontravam empoleiradas numa árvore. Apesar dos seus camaradas acharem a história um absurdo, só Kruchtchev terá a coragem de questionar a sua veracidade. A história das vinte e quatro perdizes de Estaline é repetida a uma jovem que a considera uma anedota sem sentido e, conhecendo vagamente o nome Estaline, não percebe por que razão o caçador tinha esse nome. Ela só tem 20 anos, desculpam-na. Um dos personagens constrói então a tese de que estamos sujeitos à contingência de nos dirigirmos uns aos outros de longe, cada qual num observatório erguido num local diferente no tempo. Com que referências construímos os nossos relacionamentos?

Um homem vestido como o caçador Estaline percorre um jardim público gesticulando com a sua carabina. As pessoas surpreendem-se mas, rapidamente, cedem ao charme do velho de bigode que refresca a atmosfera do jardim com um sopro idílico vindo dos tempos passados. Quantas das nossas conversas caem na sedução de sopros idílicos do passado? Evocando a presença tutelar de figuras históricas dotadas de uma bondade viril? Num passado tão distante que acaba por se tornar tranquilizador.

Alain discorre sobre as razões pelas quais a sua mãe o abandonou, imagina-a no coito da fecundidade indesejada e vê-se como fruto de um momento de descuido e de incontrolada paixão e que, por isso, terminou em ódio. Imagina a sua mãe grávida tentando suicidar-se e ao não conseguir, transforma-a em assassina. Imagina-a a pedir desculpa pela sua fraqueza, por não o ter impedido de nascer.

O narrador, por vezes, dá-se conta de que usa palavras do capítulo anterior. Se alguém pretende inventar uma língua precisa de lhe dar uma credibilidade acústica que permita antever, por entre os sons inventados, frases dotadas de uma estrutura gramatical. A festa da insignificância é um ardil de oralidade. Personagens falam entre si num entrelaçamento de monólogos que geram uma intransponível incompreensão. E da sua aparente simplicidade e desencontro narrativo, Milan Kundera constrói um romance cuja gramática confere, a frases singelas, a sonoridade de pensamentos profundos. Na badana da capa podemos ler que o autor tinha o sonho estético de abordar, com frases destituídas de sentido, a deriva inócua que carateriza a nossa contemporaneidade. Neste romance, para deleite do leitor, isso foi plenamente conseguido.

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