Contos MaravilhososContos Maravilhosos by Hermann Hesse

Esta coletânea abre com um tributo à magia dos contadores de histórias e à forma como brincam com as almas de quem os escuta. Um anão entretém a sua senhora conduzindo-a, de maneira impercetível, por mundos distantes e fantásticos, sem nunca abandonar o conforto do seu palácio. Um dia, aquela a quem serve deixa-se enamorar por um aventureiro. Humilhado e maltratado pelo recém-chegado, o Anão lançará a perdição sobre todos ao não ser capaz de controlar a sua vingança. A partir de um ardil inventado numa das histórias, leva a sua senhora a servir vinho envenenado ao amante. Quando uma história se interrompe, a vida fica presa num instante que se repete indefinidamente.

Até ao início da primeira guerra, os contos são luminosos e falam da busca da perfeição e da superação de uma arte. Falam do encontro do aluno com o mestre e da sua predisposição de tudo abdicar em busca de um sonho. A natureza, é por vezes, exaltada na sua imponência. O autor atribui-lhe uma consciência humana que se vai revelando ao caminhante que a percorre, tomando-o como discípulo, até que este, na sua arrogância, acaba por se perder.

Com a Grande Guerra, o preço a pagar pelos nossos sonhos torna-se mais concreto e brutal, e a tonalidade dos contos reflete isso mesmo. Em todos eles se sente essa proximidade de tempos obscuros e desumanos, como se todos os mestres, que valesse a pena seguir, estivessem mortos.

Na sequência de um grande cataclismo, um homem é enviado a uma estrela vizinha em busca de flores para homenagear os mortos. Pertence a um lugar onde as pessoas encaram a morte com naturalidade. Ao chegar à nova estrela, depara-se com igual mortandade resultado de uma guerra. As gentes dessa estrela temem a morte e até exararam uma lei que proíbe matar. Só na guerra é permitido matar, porque o fazem a coberto de ideais mais elevados que estão para além do ódio e da inveja. Viviam sob o receio da morte e chacinavam-se em grande quantidade. Para o viajante estas pessoas pareciam-lhe esquisitas e quase ridículas, aflitiva e vergonhosamente ridículas e insensatas.

Num dos contos, um mago concede desejos por ocasião de uma grande festividade. As pessoas acorrem com os seus pedidos. Apenas um pede o privilégio de poder ficar em sossego a escutar e a contemplar, porque gosta de pensar em coisas do eterno. É-lhe concedido o desejo de ser um monte. Quando todos esgotaram o que lhes foi concedido, envelhecidos e novamente empobrecidos, o monte continuava a dominar sobre a cidade. Era o único que permanecia preso ao que acontecera naquele dia, cismando naquelas coisas já tão distantes e há muito desaparecidas.

Estes contos são como uma montanha que se ergue acima das nuvens e, contemplando, cisma sobre o sentido que tudo isto faz, refletindo sobre o lado obsceno da violência a que estamos subjugados, aos escombros da vida e à magia da renovação. Gastando com tudo isso uma grande quantidade de tempo, por vezes luminoso, por vezes pastoso. A escrita de Hermann Hesse, acessível e dotada de uma tessitura poética, leva-nos numa deriva por mundos fantásticos, por vezes apelando à loucura, sem nunca abandonar a lucidez humanista e uma sabedoria que nos deixa maravilhados.

 E uma vez que caminho algum nos leva de volta, continuarei, noite fora, a navegar sobre as águas escuras.

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