AmálgamaAmálgama by Rubem Fonseca

Rubem Fonseca reúne neste seu Amálgama uma série de contos e alguns poemas. O narrador, sempre na primeira pessoa, surge num registo direto e afirmativo, sem palavras grudadas e numa contida adjetivação. Episódios de vida narrados com a mesma casualidade de uma conversa, com um desconhecido, numa qualquer paragem de autocarro. São contos nos antípodas dos de Esopo, dado que não pretendem transmitir uma lição ou vincar um preceito moral. São histórias de gente pobre, deformada, verdadeiras aberrações, anões, ignorantes, órfãos e estropiados. Mesmo quando têm dinheiro continuam reféns da sua condição. A pobreza é um aleijão do qual nem o dinheiro livra. Contos quase inacabados, como a vida destas pessoas que, apesar da sua existência violenta, se apagará na memória do tempo. São gente evanescente, conformada e disciplinada.


uma fila disciplinada de fodidos
esperava os restos finais do dia.
Os restos dos restos
iriam depois para os cães.

O narrador, invariavelmente homem e respondendo pelo nome de José, revela-se uma pessoa culta, um conhecedor da mitologia grega e dos clássicos. Demonstra, igualmente, ser um indivíduo perturbado. Alguém a quem as teorias de Freud não se aplicam, por serem demasiado simples. Estava claro que Freud não sabia nada do mundo dos pobres, nem da sua violência que, sendo extrema, não cabe numa análise científica. O tipo de homem que encontra na mulher a sua única referência de beleza. Alguns são mesmo escritores falhados, da estirpe que recorre a metáforas. São personagens disfuncionais que vagueiam pela cidade sem propósito ou destino. Têm algo que desejam partilhar e repetem-se, creio que já falei isso. Num dado momento acontece-lhes algo de fantástico, de chocante mesmo e, com isso, descobrem a felicidade.

No Conto de Amor um ex-militar, especialista em engenhos explosivos, constrói uma bomba de efeito fulminante para que a vítima não sofra. Antes de explodir, o engenho emitirá uma luz avisando a vítima da deflagração iminente. A pessoa que este homem pretende matar é o seu próprio filho. O leitor é então conduzido através de uma narrativa que o leva à descoberta do verdadeiro amor de um pai pelo filho.

O discurso, na voz dos personagens, é violento e desbragado, por vezes exibicionista, e tira partido da oralidade para ganhar eficácia. O mundo que Rubem Fonseca retrata é seco, cinzento e imerso num universo de orfandade. Só uma escrita dura e direta nos mantém a salvo de tanta obscenidade. Aqui não se satisfaz a curiosidade malsã dos imbecis. Rubem da Fonseca oferece-nos toda a sua mestria de contista nesta amálgama de contos negros.

Passei a andar pelas ruas do meu bairro e então aconteceu algo de extraordinário, anormal, espantoso, chocante mesmo. Nem sei como contar isso.

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