Ethel - Amanhã em LisboaEthel – Amanhã em Lisboa by Cesário Borga

Associamos a cor sépia à fotografia de época, tal como certas expressões nos remetem para um passado onde o pudor impunha uma linguagem apropriada aos bons costumes. Morreu de uma nascida na barriga, remete-nos para um tempo onde as pessoas mediam as palavras, como se ouvidos errados as pudessem escutar.

Cesário Borga conta-nos uma história que começa em plena Segunda Guerra Mundial e cujo epílogo se dá já nos anos sessenta. Se nesse hiato de tempo o mundo mudou, Portugal mantém-se sobre o manto do fascismo. Hitler deixou de ser quem manda na Europa, mas em Portugal mantém-se Salazar. Neste romance estamos em pleno território da atual literatura portuguesa: um casal é separado por um acontecimento que encerra em si um segredo, só a quebra do mistério permitirá o reencontro, mesmo que essa eventualidade seja apenas uma possibilidade em aberto. Pelo caminho desenrola-se a história. Neste caso temos a guerra e o segredo da verdadeira razão do afundamento do navio Cabo Bojador.

Cesário Borga leu, seguramente, Hannah Arendt. O comandante alemão do submarino, que afundou o navio português, não duvidava da inutilidade da sua ação e, mais tarde, confessa-se arrependido. É uma boa pessoa a quem nos é fácil perdoar. Afinal, como é típico em ficção, este alemão também gostava de jazz, uma música de negros. O papel do vilão cabe então a um português, membro da Legião, traficante de volfrâmio e pedófilo.

Porque é afundado o navio português sobre o falso pretexto de levar volfrâmio a bordo? Esse é mistério que Ethel, no seu regresso a Lisboa, se prepara para desvendar. O reencontro com velhos conhecidos não será de todo isento de perigos.

Cesário Borga não hesita em recorrer livremente ao diálogo, entrecortando-o com a descrição dos locais e de um ou outro apontamento histórico. Lisboa era, nesse tempo, uma cidade de contrastes, um excêntrico oásis numa Europa em guerra. Mas é na paisagem humana que a sua escrita mais se desdobra em metáforas, afastando-se do timbre: O escuro em que se move acende-lhe a alma e deixa-a tocar as pétalas e as ortigas enredadas no íntimo de si mesma. Ou ainda: … desperta em êxtase, a instantes de estremecer em orgasmos de arroubos sonhados, logo esmagados por pensamentos que a mergulham no terror de bombardeamentos e perseguições.

A paisagem pode também ser uma forma de retratar um país atrasado e submisso, como acontece na ida a Santarém, onde as pessoas reconhecem na viatura de Figueiroa o símbolo do seu poder e se curvam em sinal de respeito, impressionadas com o corpo robusto e esguio do carro, qual golfinho de estrada, a cor preta a espalhar sobriedade e sinais de poder.

Num país que ensaia a sua neutralidade num jogo de cedências e negócios dissimulados o poder não aceita ser desafiado pelo cidadão comum. Edgar apaixona-se por Ethel, uma judia. Nesse campo, Lisboa não estava a coberto da guerra.

É preciso esconder a dor e olhar esta desgraça sem a ver.

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