A Filha do PapaA Filha do Papa by Dario Fo

Nesta versão romanceada da vida de Lucrécia Borgia, Dario Fo não esconde o fascínio pela heroína, exaltando as suas qualidades de liderança e de resiliência. Lucrécia, vítima dos interesses do pai e do irmão, é forçada a casamentos que não deseja e vê os seus maridos desaparecerem à medida que outras alianças, mais promissoras, surgem aos olhos do seu progenitor. Por uma ironia do destino e por um breve período de tempo consegue liderar a corte Papal ou o destino do ducado de Ferrara.

Este livro apresenta uma estrutura que denuncia ter sido inicialmente concebido como uma peça de teatro e que, pela sua extensão, se transformou num romance. A trama de intrigas alimentadas pelo pai de Lucrécia ou pelo quase omnipresente irmão, desenrola-se de uma forma teatral. Alfonso, um dos seus maridos, é empurrado para um local onde, por um orifício, pode assistir dissimulado à conversa de Lucrécia com o irmão e que atesta a inocência desta na sorte que lhe está reservada. Os capítulos separam-se com uma breve descrição de entrada, como os separadores de cena usados no teatro.

O Papa, pai de Lucrécia, acha-se no topo de uma pirâmide numa posição contra a qual ninguém pode atentar. É esse imenso poder que usa em benefício próprio e, com algum pragmatismo, cita o seu mestre de geometria, o equilíbrio dinâmico é a força da fé. Não hesita em recorrer à força, ao rapto e ao assassinato para manter esse equilíbrio. Este é um homem de fé, como se pode ver. E num tempo em que era costume mais do que aceite para um homem da Igreja estabelecer relações notoriamente irrefletidas com mulheres de qualquer classe ou posição social, o Papa podia juntar ao poder e aos negócios, as delícias carnais de uma vida comum.

Atento aos seus dias e às reformas que se esperam da Igreja, o Papa Alexandre VI não hesita em aliciar as mentes mais esclarecidas. Convoca Copérnico e o mestre Novarra a quem desafia, como homens que leem as estrelas, a preverem-lhe o futuro e desse modo confirmar a justiça das suas ações; essa confirmação prematura poupar-lhe-ia, certamente, as agruras de demasiadas concessões na reforma do seu pontificado. Receando enfurecer o seu interlocutor, o mestre Novarra esquiva-se com uma resposta sábia: “Santo Padre, deveis ter paciência e esperar que se ponha o sol e venha a noite, pois é difícil ler as estrelas com a luz do dia.”

Como todos os tiranos, o Papa Alexandre VI conduz os negócios de forma desumana e criminosa, não hesitando usar a filha como um joguete nas suas negociatas, mas verga-se aos afetos familiares com a paixão de um autêntico ser humano, não encontrando nisso nenhuma contradição.

O livro vive de uma grande economia de cena, típica de quem escreve para teatro e, naturalmente, coloca toda a força nos diálogos. Aí se joga a intriga e a força literária desta obra, com algumas imagens beliscando o conhecimento tal como o entendemos à luz dos nossos dias, como nesta passagem: … é carregarmos com força no pedal do torno… Ou ainda este remoque de Pietro Bembo ao poeta romântico Ercole: … aprende a escrever em palavras, para que os vossos versos possam ser lidos por senhoras que têm o intelecto de amor.

Esta Lucrécia, só em certos momentos, é uma coisa com rotundos seios e esplêndidos glúteos. Noutros, demonstra uma determinação e uma capacidade empreendedora que, numa criatura de aspeto tão frágil, surpreende. Chega mesmo a organizar um exército para socorrer o seu irmão ou para salvar a cidade de Ferrara. Também na diplomacia se revela muito hábil e uma mais valia para o sogro, o duque de Ferrara. Com as mulheres, consegue estabelecer laços de forte cumplicidade, como os que mantém com a cunhada, apesar da paixoneta que o cunhado desenvolve por ela. Em recompensa, ele oferece ao seu falcão uma carícia de Lucrécia. Ela estranha tão fraca recompensa, apenas uma carícia! “Depende, cara cunhada, depende de quem a dá.”, responde sem esconder a malícia que se lhe arrasta na voz. Esta é a Lucrécia de Dario Fo, uma mulher em permanente fuga e que apenas pretende encontrar um lar como o da infância, quando brincava com os irmãos e, nessas brincadeiras, gostavam muito uns dos outros.

Escrever sobre Lucrécia Borgia é como andar em equilíbrio sobre o fio do impossível diante da beleza absoluta. Diz o autor e essa foi a sua arte maior.

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