Estrada de MacadameEstrada de Macadame by Paulo M. Morais

Um casal não sobrevive à perda da filha e separa-se. Daniel quer viajar para a Índia e Gina não está na disposição de o acompanhar.

 Parte sozinho. Pretende regressar aos tempos em que, ainda jovem, fizera uma viagem idêntica, de descoberta e realização pessoal. Procura, agora, libertar-se do desespero de um casamento em crise e da perda da filha. Atravessar meio mundo, afastar-se de tudo e de todos para fugir das sombras que o encerram no passado. Chegado à Índia, reencontra uma paisagem humana que lhe era familiar. Descreve-a em pinceladas fortes, carregadas de cor e odores: as da sempre exótica Índia, no seu esplendor e perigos que espreitam o turista em busca de emoções impossíveis de viver nos seus países de origem. São personagens perdidos na sua simplicidade, indefesos perante a magia avassaladora daquelas paragens.

O casal desfez-se após a perda da filha. Cada um, à sua maneira, inicia uma catarse: Daniel na Índia e Gina junto de um dos seus alunos do curso noturno. A mesma alienação os persegue. Ele descobre uma menina, obrigada a prostituir-se pelo tio e acredita ser seu destino salvá-la. Resgatar aquela criança, trazê-la consigo para Portugal e para a sua vida como se a dor que sente fosse um local vazio à espera de ser preenchido. É fácil perder-se, confundir-se com os turistas que buscam sexo com menores, misturando emoções de afeto e desejo. Uma deriva em relação à viagem reparadora que o trouxera à Índia.

Paulo M. Morais demonstra pulso na sua narrativa e arrisca nas imagens: um turbante cor de açafrão transforma-se num papagaio resgatado ao seu destino pela mão de um macaco, numa ilusão, como um mágico que encena uma alegoria de salvação e perda. O macaco sobe até ao terraço e o pedaço de tecido açafrão, liberto da cabeça humana, metamorfoseia-se num papagaio de papel que adeja livremente nos céus de Varanasi. A reencarnação, porém, é breve. O macaco liberta a ponta do turbante e ele tomba, inerte, numa vala onde correm líquidos de esgoto. O açafrão tinge-se de castanho e preto e cinzento até ficar irreconhecível no meio da torrente de sujidade.

Gina partilha com o velho Adolfo a sua paixão pela bebida. Entrega-se ao aluno como se fosse um objeto, incapaz de sentir prazer que não seja pela dor. A rotina diária resgatada, no final das aulas noturnas do projeto de alfabetização de adultos, com o primeiro uísque no bar do senhor Jaime. O vazio partilhado a dois.

Com o regresso de Daniel da Índia, o triângulo que partilha com Gina e Adolfo adensa-se e a narrativa inflete. Temos novo rumo e o foco fixa-se em Adolfo e no seu passado de miúdo de aldeia, analfabeto e fugido a um pai tirano e molestador das irmãs. Surge a operação Catarse Azul e as imagens perdem fulgor. O Datsun azul de Gina transforma-se no Rocinante metálico dirigido pelo volante-rédea e abastecido por palha líquida.

Este romance, escrito antes do Revolução Paraíso, não chegou a ser publicado, tendo agora surgido em versão eBook, a dar razão ao desabafo de Adolfo, tipógrafo de profissão: o papel perdeu o prestígio que teve em tempos. As pessoas já não respeitam nada que seja em papel.

Neste Estrada de Macadame surgem alguns dos traços que encontramos no Revolução Paraíso: o lado pícaro dos personagens, a tipografia como metáfora da sociedade pouco alfabetizada e o drama da solidão que aproxima pessoas tão díspares como imprevisíveis. A escrita de Paulo M Morais, em maturação, caminha no sentido de um timbre próprio, uma marca de água distintiva deste autor. Aguardemos que o papel receba, novamente, uma obra sua.

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