Má LuzMá Luz by Carlos Castán

O narrador, num intenso monólogo negro e intimista, lamenta a perda de um velho amigo, com quem partilhava memórias, cumplicidades e pesadelos. Viveram a infância no mesmo tempo, com o seu perfume de velhos castigos suportáveis e invariavelmente justos. Gastavam os seus dias e as suas noites partilhando histórias velhas, imitando por vezes os homens sábios que ao fim do dia vão filosofando com frases curtas e longos silêncios.

Jacobo aparece assassinado no seu apartamento onde se fechava agonizando na penumbra, com medo de fantasmas e das pessoas que dizia perseguirem-no. Fugia da má luz que se apoderava das ruas, do interior das casas e dos bares que ocasionalmente frequentava. A solidão é sempre um espetáculo para ninguém ver, um poema perdido numa língua extinta. Talvez por isso o narrador faça, em sucessivas visitas ao apartamento de Jacobo, o seu luto remexendo nas coisas do amigo. Os medos que o haviam assaltado pareciam continuar a estar ali. Recorda como ficava dias sem lhe ligar com medo de que este descobrisse, no seu tom de voz, algum sinal de alarme que o denunciasse como alguém que vagueia tão perigosamente próximo das pontes. O consolo de uma vida vazia que nos ajuda a partir porque nada embala melhor do que o cansaço.

As memórias são como objetos no quarto de um defunto: destituídos de utilidade futura. O testemunho da nossa existência guardado num museu imaginário, gavetas repletas de inutilidades reunidas durante uma vida. Que podemos deixar aos outros que seja mais verdadeiro do que a dor? Que pedido de desculpas podemos fazer ao menino que fomos e acabamos por reencontrar numa foto de infância?

O narrador, sempre com algum pudor e reserva, escutava a Jacob histórias de mulheres e, ocasionalmente, lia as suas cartas de amor. É desse modo que surge Nadia, a última mulher na vida do amigo, numa carta encontrada no computador portátil, acompanhada de algumas fotos. Decide contactá-la, talvez atraí-la para a sua cama. Não sente que seja uma traição ao amigo, a atração pelo sexo oposto, quando envolta em mistério, tem a capacidade de nos redimir. Encontra em Nádia o desfecho do mistério da morte de Jacob, a explicação para alguns dos seus medos e, tudo isso conduz ao final surpreendente deste romance. A promessa da contracapa, de que com Nadia se inicia uma investigação obsessiva para o esclarecimento da morte de Jacob, não se concretiza. Talvez porque, como nos confessa o narrador, sempre preferiu os monólogos interiores às histórias arrevesadas que avançam entre revólveres. E, por não existir em nós nada que seja definitivo, o autor desabafa não ter paciência para essa merda do equilíbrio interior. Só pode ser uma ironia.

Ela (Nadia) era a dona da minha amargura e de todas as tempestades, todas as ondas de medo acabavam sempre por se desfazer entre as suas pernas. O derradeiro cadafalso.

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