O Meu IrmãoO Meu Irmão by Afonso Reis Cabral

Dois irmãos refugiam-se no Tojal, uma aldeia abandonada com apenas três habitantes. O narrador, no papel de cuidador de um irmão deficiente, procura uma reaproximação após anos de alheamento. Viver um momento a dois, como tantas vezes o fizeram na infância, sem que nada os perturbe, nem o ruído que chega da televisão, arrastando consigo a urbanidade de que fugiram. Uma calma aparente que não passa de uma ilusão. O leitor não tardará em descobrir isso mesmo, num crescendo de situações que revelam um quotidiano, tantas vezes, ameaçador e violento.

O narrador inicia um percurso pelas suas vidas, feito de memórias centradas no irmão deficiente, cheias da presença obsessiva de Miguel; as irmãs, mais velhas, apenas merecem breves referências. Aos poucos vamo-nos apercebendo dessa fixação, da proteção excessiva e da tentativa de mergulhar no mundo do Miguel que, cada vez mais, se lhe vai assemelhando a um paraíso. Um paraíso do qual se aproxima de leste e do qual se sente excluído, ficando a leste, como insiste em nos recordar. O narrador desenvolve uma estranha percepção do papel das educadoras que descreve como pessoas pouco empenhadas, sempre prontas a fechar os olhos, burocratas com um comportamento próprio de guardas prisionais. A responsável pelo seu irmão é uma gorda que nutre um gosto por objetos decorativos com motivos infantis. Apenas o pessoal auxiliar lhe merece nota positiva. É de uma forma quase estética que exprime o seu desencanto, como quando se refere ao país, onde tudo lhe parece feio, tudo bitola ibérica. O interior é uma imensa mulher feia e viúva fechada à janela do primeiro andar de uma casa velha. Os retratos de frustração beneficiariam de um pouco mais de cor, para fugirem ao registo de “bitola ibérica”.

O irmão, com quem se sente parecido mas de um modo diferente e para quem não encontra frases boas para o descrever, acaba por se apaixonar por Luciana, uma das deficientes da “escola”. A única a quem entregava o verbo. A fixação que o narrador desenvolve por Miguel acaba por colidir com esse amor inocente. Quase tudo lhe desperta ciúme e a sensação de perda. O irmão paraíso, a quem bastava existir enquanto aos outros lhes era pedido que lutassem, surge como a imagem da redenção, de um possível Éden.

A escrita dá corpo a uma narrativa coesa que apenas esbarra na descrição da violação da mãe da Luciana, confiada à voz da educadora gorda, num arrojo diegético pouco credível nesta personagem. O discurso cada vez mais obsessivo e de uma irritação crescente, de uma raiva que dificilmente controla, culmina na fuga para o Tojal: o refúgio de infância, o regresso à pureza do mundo rural e dos tempos de descoberta. A brasa que afastada do fogo se acalma. O vislumbre do paraíso que abre o primeiro capítulo: Isto vai passar-se no Tojal. Mas, uma vez lá chegados, já tudo estava consumado.

Afonso Reis Cabral deixa-nos um romance de grande fôlego, numa estrutura bem elaborada, onde o presente e o passado se vão esclarecendo e perturbando mutuamente, para que ao leitor fique reservado o desfecho surpreendente.

os livros eram um local onde eu ouvia as vozes dos outros como se fossem ditas por mim.

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