O Olhar e a AlmaO Olhar e a Alma by Cristina Carvalho

Como imaginar alguém que viveu uma vida tão intensa e tão curta, mas plena de criatividade e paixão? Como o conhecer com uma proximidade inaudita, uma presença quase táctil, segunda pele que se nos cola e alma que percecionamos como nossa? Estamos aqui muito para além do domínio dos cânones da biografia. Só num mundo ficcionado, onde todos os limites se fazem de palavras, tal tarefa pode ser alcançada. Como chegar ao íntimo de Amedeo Modigliani, Modi, que viveu o seu tempo fora de todas as modas? Sobre quem tão pouco se escreveu?

Ele conviveu com os seus pares, artistas de diversas naturezas, com quem partilhou conversas, ilusões e agruras em ambientes carregados de vapores etílicos e outros vícios. Esteve no centro de tudo, sem nunca se dar a pertencer, sem ser assimilado. A sua pintura era uma voz única, fora de todas as correntes, reconheciam-se-lhe traços de influência dos clássicos renascentistas, mas nenhuma conceção ao gosto da época, ao que ajudaria a vender. Uma voz em monólogo, na primeira pessoa. Foi essa voz que Cristina Carvalho escutou: Escuto, e aqui vos deixo o que ouvi.

A primeira descrição de Amedeo surge feita pelo próprio, como se a autora, rendida ao seu fascínio, se recolhesse perante o belo, o que não precisa de ser descrito. Modi demonstra uma fé imensa na sua beleza e no seu magnetismo. Não era o tipo de homem que se contemple, a sua beleza não era passiva, mas intrusiva ao olhar dos outros. Uma forma de estar que se impunha, em particular, junto das mulheres. A sua arte como um segundo olhar, tão perturbador como o primeiro. Amedeo quis aprender tudo, a dura rudeza da pedra, de a amaciar, de a tornear, de a marcar e compreender; a revelação da pintura, os meus passeios com amigos, as mulheres que me aconteceram sem nunca enlouquecer, a tosse, a doença, a minha vida e a minha morte.

O romance abre com o nascimento de Amedeo. Desde logo, porque era preciso introduzir nesta história a sua mãe: Eugénie. Nunca uma mãe mereceu tanto o tratamento pelo nome próprio. Eugénie, a mãe querida que sempre o protegeu e o mimou. Ela, sentada a seu lado nas dobras da roupa, lendo-lhe os clássicos, ensinando-lhe línguas e filosofia. Uma mãe que depositava uma fé inabalável no génio do filho, como a autora nos transmite numa carta de Eugénie: A sua aprendizagem será apenas um aperfeiçoamento, um limiar do que já nele existe: a diferença.

Eugénie marcou a personalidade de Amedeo e deu-lhe uma cultura que, juntamente com o porte aristocrático, tantas vezes o salvou da indigência pura. As pessoas não o viam como mais um mendigo mal trajado que deambulava bêbado pelas ruas de Paris. Como um pobre diabo a viver de esmolas. Era o italiano.

O seu processo de aprendizagem, as viagens que fez a Florença e Veneza, as academias que frequentou, transmitiram-lhe a consciência de que a sua arte só seria entendida fora de Itália, longe dos meios académicos conservadores, mestres de pinturas cheias de vícios, nada inovadores, impantes de sabedoria clássica. Esse desacerto com o seu tempo não será apenas o resultado do meio provinciano onde nasceu. Também Paris não estava preparada para o receber. Numa carta de Amedeo ao pintor Giglia, companheiro de estudos, a autora deixa-nos essa alegoria do tempo incerto, ao invocar as melodias dos imensos relógios de Veneza, tocando a intervalos irregulares sempre a mesma hora. Agora aqui são seis da tarde e só mais daqui a bocadinho serão as mesmas seis da tarde na piazza ao lado. Nunca acertará o seu passo com o meio artístico que o rodeia.

A sua personalidade forte, num corpo martirizado pela doença e pela fome, não vacila. Detesta a vulgaridade, as pessoas de ideias planas, sem rasgo, sem gritos interiores, os que querem fazer crer tudo o que não são, fugia do contacto com tal gente. Aí não havia nada a aprender. Nada. Para ele só o melhor, só o mais elevado fazia sentido.

A autora não se estende muito pela técnica da pintura de Amedeo, não foi por aí que a sua arte se impôs. Foi nessa tristeza, nessa melancolia doce dos traços alongados que lhe recordavam as silhuetas dos candeeiros do cais de Livorno, sua terra natal, que a sua pintura ganhou destaque a nível mundial. A falta de reconhecimento no meio artístico e o desprezo do público anónimo que deambulava pelas galerias de arte, deixavam-no desanimado. Nunca vendeu um quadro que fosse. Apenas os seus mecenas, e felizmente teve alguns, lhe acudiam de tempos a tempos.

O que sobra, para além das suas monumentais bebedeiras, do seu insucesso como artista, da sua vida manhosa, faminta e pedinte, que resulte num romance? A sua alma, essa mesma, não a do sentido religioso, ao qual Amedeo não prestava atenção nem crédito, mas a alma em toda a dimensão do ser, nas suas indecisões e contradições, no seu fascínio, luz e mistério, tudo isso move este romance e claro, não podiam faltar as mulheres. Não todas, que houve imensas, mas as que marcaram Amedeo e lhe alimentaram a chama criativa, as que com ele partilharam o calvário da fome, misérias, droga e bebedeiras de uma vida, tantas vezes, sem um tecto para os acolher.

Ás suas musas não lhes bastava um pescoço alto e bem lançado, olhos de veado ou um corpo de deusa. Eram mulheres excecionais, inteligentes e livres. Todas elas o marcaram com um período de intensa atividade. Jeanne Hebuterne, que lhe deu uma filha e um filho que não chegou a nascer. Na sua explosiva juventude e rebeldia, foi a sua ultima companheira. O amor e a paixão que ambos viveram, a sua morte trágica, essa morte tão jovem, invocada e elevada à beleza eterna, faz parte inseparável do mito trágico de Modigliani e eleva-o à galeria dos amores imortais: Romeu e Julieta, Tristão e Isolda, Pedro e Inês, Modi e Jeanne…

É nesse lado irracional da paixão e ao mesmo tempo avassalador, que Cristina Carvalho constrói a narrativa dessas musas. Da sua relação com Modi, das suas tempestades e da extremosa educação que sempre lhe conferiu um porte aristocrático. Tudo isso se encontra numa escrita que, tal como a arte do pintor, se inspira em ressonâncias, em sombras e traços alongados, encontro num espaço-tempo em que, autora e retratado, parecem ter habitado sob um mesmo corpo.

O tom da escrita ascende ao domínio da poesia, as frases surgem dotadas de um magnetismo próprio que prende o leitor, transportando-o para os locais inebriado pelos ambientes, até sermos esse Modi esfomeado divagando pelas ruas de Paris. E tal como a autora colocou na voz de uma das suas musas, insisto: Não me perguntem nada, que vos mentirei e vos desenharei, eu também, situações imaginadas. Nada corresponderá à verdade. Uma escrita para se ler sem nada questionar, para se viver sonhando cada uma dessas linhas.

Dificilmente não se gostava de mim. Quando apertava a mão a alguém, era um apertar firme e caloroso. Os meus olhos transbordavam de amor. Também me diziam, superlativamente, que eu era um príncipe no porte e na fala. Eu era assim. Fui assim até me deixar morrer.

Nota:
Romance Vencedor do PRÉMIO AUTORES 2016 ao MELHOR LIVRO DE FICÇÃO NARRATIVA. Na cinta alusiva ao prémio surge uma frase desta recensão.

Anúncios