Por Amor de DeusPor Amor de Deus by António Souza-Cardoso

O filho mais velho de uma casa fidalgal, de férias na quinta da família no Douro, deixa-se envolver com a filha do caseiro, lançando a desgraça sobre a família de ambos. Decide, então, refugiar-se em África. Aí iniciará um périplo pelo mundo onde acumulará fortuna, apesar das armadilhas em que se deixa envolver, fruto da sua ingenuidade. O indigente que rejeitou a família, chega a milionário. De regresso a Portugal sofre um acidente cardiovascular que o coloca numa cadeira de rodas. Encena um golpe palaciano, fazendo-se passar por incapacitado, para melhor poder vigiar a família a quem hesita deixar a sua fortuna. O desfecho final é surpreendente e traz consigo o clássico retorno às origens.

Rui Zink, no prefácio, destaca a entrega por inteiro do autor, típica de um primeiro romance: … se alguém quer conhecer o modo como organizamos o mundo, perdão, o modo como vemos o mundo (o modo como gerimos / geramos a nossa visão do mundo), venha ler-nos.

Na quinta do Douro assistimos a uma festa, um microcosmos social de um tempo em relação ao qual só se pode guardar uma certa nostalgia. Os senhores divertem-se, entre paredes, com elegância e serenidade, escutando uma peça de música clássica tocada ao piano, enquanto os jornaleiros dançam ao ar livre ao som de uma concertina. Um povo feliz, reconhecido pela vida simples que lhe é concedida. Mateus Pidwell Novaes, jovem médico acabado de se licenciar, desloca-se entre esses dois mundos com inusitada facilidade para alguém da sua condição. Também ele é capaz de se entregar àqueles momentos de partilha e de alegria no desfrute das coisas simples. É nessa altura que se aproxima de Leonor, a filha do caseiro, uma rapariga de colo amplo e alvo de princesa. Dá assim, sob um luar amplo, início à sua perdição.

A escrita de António Souza-Cardoso tem o rasgo e a nostalgia dos clássicos. Como nesta descrição de Lourenço Marques: a pérola do Índico, que se insinuava ao mar numa baía de cortar a respiração. Brinda-nos com uma noção clara sobre o papel da cultura profunda, que só se adquire pela traditio familiar, e do valor da felicidade das pessoas simples que se aquietam com o que a vida lhes dá. Na política, encontramos o desencanto por Salazar que, ao contrário de Franco, não teve rasgo para antecipar o futuro. Terá faltado mundo a um Salazar marcado pelo estigma de ter nascido numa família humilde de Santa Comba Dão.

Um travo de contemporaneidade surge quando a escrita remete para os dias de hoje, como na descrição da prole de um dos grandes amigos de Mateus: todos homens, todos viris, todos benfiquistas. Ou como na personagem de Anica, a terapeuta da fala que, entre piercings, bissexualidade, budismo e outras toleráveis rebeldias, é capaz de pôr quase todas as construções sociais em causa. Também defende o milagre económico português, capaz de vencer as economias de mão-de-obra barata por recurso à incorporação de mais valor na cadeia económica. A sustentabilidade baseada numa sociedade menos centrada no outro e mais virada para o respeito pelo seu espaço.

António Souza-Cardoso oferece-nos um romance de escrita formal e contida, fiel a uma certa conceção do mundo baseada na traditio familiar, mas capaz de construir, pela amizade, pontes entre diferentes proveniências sociais. No final o mistério é desfeito para a felicidade e tranquilidade da família Pidwell Novaes.

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