A definição do amorA definição do amor by Jorge Reis-Sá

Este é um romance sobre a espera. Francisco Janela aguarda o nascimento da filha enquanto a mulher, em estado de morte cerebral, definha lentamente. Alimenta uma frágil esperança de que o inevitável possa ser revertido, como se existisse alternativa ao papel de figurante que desempenhamos nesta vida. A visita do padre ao seminário e a homossexualidade consentida, o prognóstico muito reservado do médico da Susana, a violação incestuosa encarada com benevolência pela agressora e o sentimento de orfandade que se vai instalando. E o senhor Fidélio, guardador de pombas, sempre solícito em saber notícias da Susana.

A Susana ainda está viva e eu não consigo deixar de pensar na forma como a vou enterrar. Dessa espera, nasce um monólogo entre a negação da realidade e a revisitação do passado, como se nada sobrevivesse à perda que se anuncia. Ciprestes do cemitério uivando à Lua a solidão de mais uma noite que se avizinha.

Sem sínteses esconsas ou teses generalistas Jorge Reis-Sá escreve sobre a morte. A morte que ainda respira, adiada. A morte palpável, presente no quarto de um hospital gerando uma vida nova, e à qual se opõe um quotidiano de espera. O tom da escrita não é triste, apenas resignado. Um homem no seu posto, aguardando sem exaltação, nem apelo religioso. Este é um romance sóbrio, uma viagem lúcida ao interior de alguém que se despede de si próprio.

Somos feitos do que lembramos

 

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