Uma Menina Está Perdida no Seu Século à Procura do PaiUma Menina Está Perdida no Seu Século à Procura do Pai by Gonçalo M. Tavares

Numa geografia distante e num tempo impreciso, um homem em fuga ajuda uma menina perdida à procura do pai. A menina, portadora de trissomia 21, não consegue dar nenhuma informação relevante, tal como nos é negado saber de que foge este homem. A menina transporta uma caixa com um conjunto de fichas didáticas que Marius, o homem, vai explorando. As limitações das crianças portadoras de deficiência mental desfilam numa série de cartões de aprendizagem. Numa das fichas pede-se para identificar a parte do corpo que dói. Marius padece de uma dor para a qual não existe uma anatomia definida. Hanna, assim se chama a menina, sorri sempre.

Na busca pelo pai da menina, vão encontrando uma série de personagens estranhas, com hábitos invulgares, que nos vão transmitindo uma inquietação progressiva, como se vivêssemos um sonho difuso. Estamos perante a observação da loucura através de pessoas normais, acompanhados por uma deficiente. Interiorizamos a inevitabilidade de que a partir de um certo limite temos de acreditar nas pessoas…, aceitar o que nos vai acontecendo, e avançar. A vida pode ser um objeto estranho e perigoso.

Hanna tem uma perceção não funcional da vida, tal como o velho relógio que perdeu o ponteiro das horas, mas cujo mecanismo continua a funcionar, com uma precisão agora impossível de aferir. Hanna está confinada a um corpo que tem vida, pensa e sente, mas não consegue comunicar com precisão. O velho Vitrius preenche cadernos com sequências de números pares sem qualquer fim em vista. Uma tradição familiar iniciada pelo avô, e que lhe parece absurdo não dar continuidade. Se ele, Vitrius, deixasse de preencher aqueles cadernos, todo o esforço do avô e, posteriormente, do pai teria sido em vão. Temos a capacidade de encontrar nas coisas sem sentido uma imensa força.

Adam Josh escreve frases numa letra tão minúscula que a olho nu se confundem com uma linha. Nesse exercício emocional, a escrita surge como um objeto estranho, improvável. Uma anormalidade existencial. Neste romance, uma sucessão de personagens deslocados vai empurrando a ação. O livro perde quando esses personagens começam a repetir-se. Fica-nos a sensação de que a narrativa falha o rumo e fica à deriva.

Marius desfaz-se das fichas didáticas e deixa atrás de si um trilho de aprendizagem: a nossa vida é da mesma natureza.

Hanna, num momento de afeto, abraça Fried. Ocorre então a Marius que Fried abraça Hanna como se lhe pedisse desculpa por ser diferente, por, enquanto pessoa normal, ter a consciência do seu próprio destino. Ao mudar o foco da narrativa, de Hanna para Fried, Gonçalo M. Tavares transforma esse momento em algo perturbador. Essa simples alteração, mantendo a voz do narrador em Marius, transforma um ato banal, num elemento de tensão ficcional. A escrita de Gonçalo M. Tavares não é dada a exercícios literários. Segue uma linha monocromática, de linguagem depurada, num discurso que oscila entre a primeira e a terceira pessoa, alternando o ponto de vista do narrador. Abre um imenso campo às ideias que explora de forma lúcida e inquietante.

Este romance é uma reflexão sobre a nossa zona de conforto e de segurança e também sobre o conhecimento de toda a loucura necessária para a construir. A realidade, tal como os outros a veem, transforma-se numa ameaça. Hanna é o único elo são entre o nosso e o mundo dos outros, por isso cativa e estabelece laços de cumplicidade com todos os personagens. De certo modo, andamos perdidos no nosso tempo em busca da nossa identidade.

E o certo é que, embora Hanna não se apercebesse, já há muito que não procurávamos o pai dela.

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