O Homem do PuzzleO Homem do Puzzle by Fausta Cardoso Pereira

Neste romance existe um contabilista viciado em puzzles. De um contabilista esperamos um espírito metódico, habituado a lançar números em linhas e colunas certas, conhecedor da importância de que tudo permaneça no lugar a que pertence. Que desgraça poderá acontecer se um determinado valor for inscrito na coluna errada? Comprometendo o equilíbrio natural das contas? A contabilidade é muito mais do que o balanço entre o deve e o haver. Fazer um puzzle é muito mais do que o trabalho paciente de encaixar peças até todo o tampo da mesa ficar coberto.

Pode ser viciante ao ponto de nos servir de métrica para a analogia da vida. O homem na cama do hospital sente-se como um puzzle desmantelado, as pessoas podem ser complicadas, como um puzzle de dificuldade média, podemos acomodar-nos à mudança como a peça de um puzzle encaixa no seu lugar. No início, são as peças soltas, depois existe um percurso do caos até á ordem final de um puzzle terminado. Não é preciso concluí-lo para saber como ele é, essa informação é do nosso conhecimento desde o momento inicial.

Existe nesta escrita um entrecortar de situações banais que ajudam a autora a construir a noção da realidade. O nosso contabilista zanga-se com a namorada por causa de umas migalhas, terminando com ela, o que a leva a cometer suicídio. Situação que suscita a seguinte reação do narrador: Talvez tenha sido a primeira vez, na história da humanidade, que migalhas foram o argumento para terminar uma relação e para provocar um suicídio.

O que pode acontecer se alguém, ao terminar um puzzle, depare com a falta de uma peça? Uma única peça a frustrar a conclusão do trabalho, tão decisiva como o elo perdido na descodificação do genoma humano. O nosso contabilista, ao finalizar o puzzle mais difícil do mundo, confronta-se com essa tragédia e inicia uma luta para que a fábrica lhe entregue a peça em falta. A fábrica rejeita qualquer responsabilidade e não admite a possibilidade de uma falha no seu processo de fabrico. Os seus elevados padrões de qualidade tornam os operários irrelevantes face ao avanço tecnológico, como se o progresso, ao anular as pessoas, anulasse também os seus erros. A lógica da eficiência, fazendo dos operários mestres de ofícios extintos, deslocando-os do trabalho com as máquinas para vigilantes do trabalho das máquinas.

Fausta Cardoso Pereira constrói um thriller a partir de uma peça que falta à paisagem mais difícil do mundo, transformando esse elemento perdido no graal da sua narrativa. A filigrana que se propõe construir exige-lhe o saber dos mestres, terá logrado concluir esse puzzle?

E se a Alice, como tantas outras pessoas, precisou do meu puzzle para tratar dos seus assuntos, então este puzzle também lhe pertence.

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