BichosBichos by Miguel Torga

Num conjunto de catorze contos, Miguel Torga junta homens e bichos numa alegoria do comportamento humano. Do gato marialva ao galo fanfarrão que acaba destronado pelo filho, temos, num tom ligeiro e humorado, o desfilar de um rosário de dores bem humanas. Pretexto para nos recordar que sabemos bem pouco sobre esse mundo cheio de vida que nos rodeia, e com o qual partilhamos um lado animal. A gente entende pouco do semelhante. Cada um de nós é um enigma, que na maior parte das vezes fica por decifrar.

A partir do conto Ramiro o tom da narrativa muda, e sobre o ciclo da vida desce um olhar grave, por vezes sombrio, um lusco-fusco a empoeirar o céu. O tom ligeiro inicial dá lugar à reflexão séria. Ramiro salda no local e no momento, as suas contas com um vizinho; algo tão natural nele que sempre foi homem de poucas palavras. Quem vive do campo, a cuidar dos animais e a matá-los, mergulha numa violência tão natural que faz parte do seu modo de vida. No conto sobre o touro Miura, atinge-se um nível literário ímpar, ao qual não resisto a copiar esta passagem:

Mas o homem que visou, que atacou de frente, cheio de lealdade, inesperadamente transfigurou-se na confusão de uma nuvem vermelha, onde o ímpeto das hastes aguçadas se quebrou desiludido.
Cego daquele ludíbrio, tornou a avançar. E foi uma torrente de energia ofendida que se pôs e movimento.
Infelizmente, o fantasma, que aparecia e desaparecia no mesmo instante, escondera-se covardemente de novo por detrás da mancha atordoadora. Os cornos ávidos, angustiados, deram em cor.
Mais palmas ao dançarino.

A Arca de Noé, como o autor refere o seu livro, é esse manto de experiências sem as quais ninguém pode reclamar ter vivido as coisas do seu tempo, seja homem ou bicho. Sejamos seres livres.

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