O AcontecimentoO Acontecimento by Afonso Valente Batista

Este livro abre com o chamamento, o regicídio de D. Carlos, que serve de prólogo à chegada do desconhecido asceta, que acreditaram ser o homem certo para tomar conta do falido tesouro. Não será, contudo, esse o acontecimento. O homem providencial transformar-se-á no Estorvo, virá a primavera que não fizera florir nem o fruto da liberdade nem o trigo da abundância, para lhe suceder o verão quente, e chegará o homem Irremediável que prometia fazer do país uma locomotiva e se fazia acompanhar de uma imensa tropa de estranhas criaturas. Deu-se então o acontecimento.

Já o país se encontrava sossegado quando, numa outra alvorada – esta coberta de nevoeiro – a cidade acordou com um navio virado de barriga para o ar mesmo em frente à nobre praça que lhe servia de sala de visitas.

Os sábios das coisas do destino viram no acontecimento um presságio, ainda por decifrar, a ensombrar o futuro.

O país promontório conheceria novamente a crise e outro homem providencial. Mas esse, deu aos pobres o que era dos pobres e aos ricos o que era dos ricos, endireitando o país, tornando-o num campo lavrado de emigrações, mendicidades, pobrezas (e) loucuras

A escrita de Afonso Valente Batista, num tom épico e humorado, dá-nos o retrato de um país que sossega sobre o látego dos homens providenciais e procura realizar os sonhos dos mortos, tornando-se seguidores inquebrantáveis do seu legado.

O maior de todos os homens providenciais, o Estorvo, amado e detestado, acreditava, sem nenhuma exceção, que foi para obedecer que Deus criou o homem.

Queria o país livre de vadios, cartomantes, ciganas a ler a sina, maricas rebolando as ancas nos cruzamentos das avenidas, bruxos com receitas peçonhentas de tudo remediar, comunistas, anarquistas, maçons e outros que tais, putas de andar cor-de-rosa, velhas de cara lambuzada de pó de arroz, namorados aos beijos na praça pública, escritores e poetas de palavra livre e pensamento desobrigado, homens que queriam fazer o seu próprio caminho, velhos a carpir remelas de longas pobrezas, adivinhos de boas e más sortes. Pobres à vista de todos e com direito à luz do dia, só podiam ficar os que com ar servil e com a cara rente ao chão agradeciam a bondade de uma esmola e faziam o sinal da cruz. Tudo o resto, aferrolhados em barracas, em tugúrios, em lixeiras, em choças, onde quer que fosse, nas muitas covas à volta das cidades ou degredados no esquecimento das aldeias sem água, sem luz e sem estradas.

Determinou não poder haver vadiagens, nem pessoal madraço a andar livremente por aí para não degradar a idílica imagem do Estado Novo que estava a criar, onde tudo seria arrumação, limpeza e ordem. Queria ver criancinhas felizes, meninas de bibe com folhas bordados e laçarotes floridos nos cabelos loiros e rapazinhos de uniforme, camisa verde, bivaque castanho-escuro e um misterioso S na fivela do cinto a irem para a escola de sacola ao ombro para aprenderem a conhecer a história do mundo multirracial que os nossos heróicos antepassados nos tinham legado, contada na única cartilha por onde todos tinham de estudar.

Como todos os homens, o Estorvo revelou-se mortal.

Mortal, o Estorvo, pouco habituado a estas coisas de luxos –afinal a horta, as couves, o feijão, as batatas e as galinhas sempre foram o seu imaginário e assim governara o país – num dia de veraneio, despencou-se de uma cadeira na inabilidade de se sentar com conveniência, porque mesmo habitando palácios, ficara-lhe sempre aquele rústico descuido de não ter o jeito dos que tinham nascido em berços de opulências. Ainda houve quem dissesse que era disléxico desde miúdo.

O que ficou para a História é que bateu com a cabeça no lajedo e logo ali baralhou-se aquilo que tinha de mais pérfido – a cabeça.

Sobre este pano de fundo acompanhamos os sonhos e aspirações de Ambrósio, Eugénio Ventura ou Adolfo Bernardes, a atestar que a mobilidade social se consegue pelo canudo ou pela esperteza saloia, sem nunca nos libertarmos do estigma de hortelão que, desde logo, nos fica agarrado ao nome de família. Este romance é uma proposta curiosa, numa escrita escorreita, de visão lúcida e desassombrada da nossa história contemporânea.

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