O País do CarnavalO País do Carnaval by Jorge Amado

Paulo Rigger, filho de um fazendeiro abastado, chega ao Brasil após muitos anos de ausência em França, onde tirou um curso de leis. Espera-o um Brasil pobre e aculturado, do tempo em que a cultura francesa dominava o mundo.

Rapidamente se junta à elite diletante da Bahia com quem partilha angústias e o projeto de um jornal que fosse uma pedrada no charco, lhes granjeasse fama e dinheiro. Entre si discutem a finalidade da vida.

 

Talvez não exista o Fim ou propósito de uma vida e tudo se resuma à força com que nos apegamos a ela. Ao faltar-nos a coragem para deixar a vida, nada nos impede de sofrer. Uma acesa discussão em torno da busca da felicidade que se aceita na juventude dos dezoito anos de Jorge Amado (este foi o seu primeiro romance).

Os amigos de Paulo Rigger, influenciados por Ticiano, acreditam estar a felicidade apenas ao alcance dos medíocres e dos burros. Os homens superiores cultivam a dúvida ou combatem-na com uma atitude serena e filosófica. Ticiano diverte-se com as fragilidades dos seus amigos, não hesita em ser cruel contra quem use da bondade ou procure apenas intelectualizar-se. Era o grande aniquilador dos sonhos pequeno-burgueses. O fazedor de frases de espírito que desagradavam ao bom senso. A antítese de um Brasil que acreditava vir a ser, um dia, o melhor país do mundo.

A figura de Ticiano não encontra concessões por parte do autor que chega a atribuir-lhe a seguinte frase: dizia ser a literatura brasileira uma subliteratura portuguesa.

O grupo de amigos vai-se desfazendo aos poucos num laboratório prático dessa demanda pela felicidade.

O cerebral Rigger será feliz nos braços da sua amante enquanto esta pensa voluptuosamente nos músculos do negro que trabalhava na fazenda. É, assim, que o cerebral Rigger cede aos sentimentos. Admitirá, mais tarde, que só se sentiu brasileiro em duas ocasiões: quando sambava no Carnaval e quando deu uma surra em Julie depois de descobrir a sua traição. Mas Rigger, ao repudiar a sua noiva por esta não ser mais moça, revelar-se-á tão apegado à tradição, como qualquer brasileiro comum. Com essa atitude condena-se à infelicidade. Regressará a França desiludido e amargurado, num domingo de Carnaval. Da amurada do barco vê desaparecer, lentamente, o País do Carnaval.

À Juventude do autor e, no contexto do livro, perdoam-se pequenos entusiasmos como esta frase uma pequena lâmpada elétrica chorava através do abajur uma luz esbranquiçada ou ainda A luz das lâmpadas elétricas, na rua, dava chibatadas na escuridão envolvente.

Neste primeiro romance, Jorge Amado, revela-se já um atento perscrutador da alma brasileira, da sua incapacidade em vencer a pobreza, dos seus preconceitos, das suas inconsistências, do povo que se agiganta e derruba todas as barreiras a cada Carnaval.

Diante da grandiosidade da natureza, o brasileiro pensou que isto aqui fosse um circo. E virou palhaço… (abertura do prólogo do livro, a que o autor chamou: Explicação)

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