Histórias de Ver e AndarHistórias de Ver e Andar by Teolinda Gersão

Estava sempre ocupada, as coisas davam-lhe que fazer como crianças a quem se tem de dar atenção o tempo todo.

Estas histórias de ver e andar propõe-nos uma forma de olhar para as situações simples do nosso dia-a-dia, sejam casos de desamores, de abandono ou um segredo que resgatamos ao passado. Quase sempre iniciamos com uma pequena observação, temos de reconhecer que a defunta não incomodou ninguém, ou com um quase desabafo, sempre gostei de ler e nunca pensei que daí me pudesse vir algum mal. Depois a narrativa vai ganhando densidade, imbuída de uma musicalidade própria, até a história, no seu todo, nos ser revelada. É o desfecho que nos surpreende e nos reconcilia. O gozo pleno do espetáculo dos outros.

Um grupo de adolescentes quer aparecer na TV. A vida dos que aparecem no pequeno écran é perfeita, boas roupas, grandes festas, bons carros, gente sempre a sorrir, sempre felizes. Mas não basta ser bonita e ter um corpo de modelo para chegar à televisão. É preciso algo que seja espetacular, algo que abra os noticiários. Escolheram a Tânia porque ela não fazia falta. Depois, nada de mal acontece a quem aparece na TV, onde ninguém é preso e tudo acaba sempre bem como um belo pôr do sol em Miami.

Sob o olhar atento da autora, desfilam pequenos gestos e omissões, para os quais já nem ligamos ou, quando muito, nos revisitam em sonhos a reclamar a sua reparação. São pequenos apontamentos de gente, invariavelmente, só. Escutamos o seu grito, o seu pedido de desculpas intenso, porque ninguém nasceu para carregar tanta dor. Mesmo que eu abrisse a janela e gritasse, mesmo que eu tivesse a voz e a minha voz fosse alta como uma sirene de ambulância e eu abrisse a janela e gritasse – quem me ouviria?

Nesta coletânea de contos encontramos a voz das pessoas mergulhadas na solidão, o assassinato fútil de Tânia, a revelação de um segredo guardado desde a adolescência ou o velório de quem nunca foi de incomodar, situações que ganham força na magia de uma escrita simples de tom doce e subtil toque de humor que Teolinda Gersão imprimiu à sua narrativa. A todo o momento podemos assomar a essa janela de indiferença que é o mundo onde, aparentemente, nunca foi tão fácil comunicar e ninguém se detém para nos escutar. Prometem-nos diariamente o belo e nada acontece. Teolinda Gersão captou, magistralmente, esse lado inquieto da vida simples que nos redime perante o imenso vazio em que soçobramos.
AG

Excerto:
Isso foi, naturalmente, antes de o caixão ser fechado e selado e de já não ser mais possível olhar a defunta – que parecia muito aprumada e compenetrada, vestida de preto, como se não tivesse a menor dificuldade em se adaptar àquele papel, embora antes nunca o tivesse experimentado. Mas ela sempre assim fora- facilmente se adaptava, e parecia sempre estar à altura, em todas as situações.

Hist_ver_andar_TG

Anúncios