Do Fundo do Poço se Vê a LuaDo Fundo do Poço se Vê a Lua by Joca Reiners Terron

O leitor terá primeiro de vencer frases como: Os raios de sol intercetados pelos prédios fracionam as ruas da cidade, rajando tudo de luz e de sombra, e o cobre esmaecido dos balcões, dos narguilés e das chichas reflete o interior dos cafés abrindo aos poucos, como se bocejassem.

Depois a leitura entranha-se no jogo dúbio da descoberta da sexualidade por parte de dois adolescentes, tão parecidos que um não podia existir sem a sombra do outro. Caminham juntos, como se estivessem presos num jogo de espelhos de uma atração de feira, onde o reflexo se confunde com o original, numa obediência cega à semelhança física. Por momentos, pensamos que o autor vai revisitar o tema clássico do incesto, agora com dois irmãos gémeos, mas depois entramos no Ciclo Duplo, até à tragédia de um irmão não se reconhecer mais no outro.

Willson acredita que se metamorfoseou de lagarta em borboleta, renascendo de forma luminosa em Cleópatra. Para o leitor, essa é uma história de metamorfose invertida. O Ciclo Duplo e os seus equívocos sobrepõem-se ao amor entre irmãos. O diário de Wilson, nave espacial viajando no espaço intergaláctico, aproxima mundos e tempos diferentes, tornando percetível ao leitor toda a trama. Estamos limitados a saber apenas o que se faz visível aos nossos olhos.

Sabe-se que os irmãos gémeos monozigóticos são sempre do mesmo sexo. Sabe-se que a tragédia sempre espreita os gémeos: um deles morre e o outro cria uma cidade. Foi assim com Caim e Abel, Rómulo e Remo, Apolo e Artemis, Castor e Pólux que tiveram de partilhar alternadamente a terra e o inferno sem nunca se encontrarem. Será também assim com estes dois irmãos. Uma tragédia, uma bifurcação inesperada em suas vidas, os manterá separados durante vinte anos. Para sempre William e Wilson – nunca mais William e Wilson.

Wilson, na sua pele de rainha – rainha tão exilada ao ponto de ter nascido com outro sexo-, recriará a sua cidade no Cairo. Será ele o gémeo sobrevivente?

Será que a borboleta se recorda dos tempos em que foi lagarta? Ou um estado de amnésia separa o nascimento da sua vida anterior? Para que toda a tragédia se consuma é preciso que o renascido recupere a memória e, então, William, Wilson e Cleópatra serão um só. Quando Wilson começa a recuperar a memória, acredita ser, a imagem do seu irmão brincando com ele, apenas a recordação do seu próprio reflexo. A consciência da existência do irmão gémeo só acontece momentos antes de lhe escrever a pedir ajuda. Cleópatra renasce presa à sua própria tragédia, nisso nunca deixou de ser Wilson. Fecha-se então o Ciclo Duplo com a clássica entrada em cena do morto em busca de reparação.

Do fundo do poço se vê a lua, é um romance invulgar, de estrutura ousada que nos fala do amor fraterno que resiste à separação e á troca de identidades, da relação com o outro que, de tão próximo, apenas o conseguimos intuir. Literatura maior num romance empolgante a não perder.

Há muitos animais na natureza que são forçados à metamorfose.

 

Citações:

– Mas eu me sinto um monstro, professor, sou um aborto que deu errado – eu lhe falava.

-Você não é nada disso, Cleópatra – ele me respondia. – Agora seja uma boa menina e durma.

(diálogo entre Willson e o prof. Langevin)

 

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