A Noite não é EternaA Noite não é Eterna by Ana Cristina Silva

A ação deste romance decorre numa Roménia dominada por Ceausescu. Uma ditadura que abusa do poder policial de forma arbitrária, a fim de dominar os cidadãos pelo medo, forçá-los a um permanente estado de autovigilância, a abster-se de pensar, desconfiados das palavras que lhes habitam as ideias.
Quem falasse com imprudência arriscava a cair em desgraça, arrastando a família consigo.

Nadia desfruta de uma vida de moderados privilégios que lhe permite viver num apartamento para funcionários do partido e escapar às filas intermináveis para adquirir alimentos. A ambição do marido em progredir na carreira e na hierarquia do partido leva-o  fazer algo impensável. O seu esforço para “reeducar” a mulher não consegue abafar o desejo de vingança que cresce em Nadia. Esse desejo acabará por lançar a todos numa espiral de acontecimentos que os conduzirá a uma noite ainda mais escura. Noite que se confunde com a repressão do regime e com a tristeza generalizada das pessoas. A mais triste das prisões é aquela onde se busca refúgio e se aceita viver confinado em troca de uma ilusão de segurança. Não estamos em tempo de guerra, mas existe um ambiente de trincheira onde as pessoas se recolhem, protegendo-se do perigo real de se exporem.

Pode uma paixão ser um paliativo para a falta de liberdade?

Por vezes, do vazio surge uma coragem, uma determinação e, naquele canto da alma onde a razão não valia nada, nasce a salvação. Nadia parte numa investigação e decide usar o medo coletivo, que tão bem conhece, como seu disfarce. Estamos perante uma derradeira tentativa de corrigir o mal feito pelo marido. Inicia assim uma descida aos horrores dos orfanatos do regime onde se procura construir o homem novo da Roménia. Crianças famintas, sem higiene, sem o mais rudimentar carinho e sujeitas a sucessivas transfusões de sangue, prescritas pela primeira dama como forma de as fortalecer, transformam-se em fantasmas sem forças para lutar pela própria sobrevivência. Encontrará Nádia nessas crianças um conforto para a sua dor? Estará a ser vigiada sem o saber?

Ana Cristina Silva deu corpo à repressão imposta pelo regime de Ceausescu, uma noite quase eterna a que condenou a Roménia enquanto permaneceu no poder. Nas páginas deste romance respira-se de forma palpável a falta de esperança, o medo permanente do vizinho que pode ser um informador e do colega vigilante de uma palavra que se solte de forma imprudente. Somos condenados a um monólogo que, por receio, se transforma num sussurro interior. O leitor mergulha no sufoco desse tempo até se questionar sobre o papel de Nadia enquanto mãe.  Uma mãe que se veste com as dores de uma pátria adormecida num imenso inverno. O que pode fazer essa mãe? Não desistir, nunca. A noite não é eterna.

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