JudasJudas by Amos Oz

Amos Oz, na abertura deste romance, promete-nos contar uma história onde existe engano e desejo, desilusão de amor e uma certa questão religiosa que ficou por responder. Uma simplicidade que não convence o leitor mais experiente.

Samuel interrompe os seus estudos universitários e aceita fazer companhia a Wald, um velho doente com quem deve conversar e sobretudo, se conseguir, discordar. Estamos em Jerusalém no inverno de 1959.

Wald, um homem experiente e sábio, uma espécie de depositário da consciência política de Israel discute com Samuel os fundamentos da criação do Estado Judaico, enquanto este lhe fala da sua tese sobre Judas visto pelos judeus, que nunca chegou a terminar. Aos argumentos de que as potências decadentes, para perpetuar a sua influência na região, condicionaram o futuro dos ex-territórios coloniais, junta-se o papel de Judas na formação do Cristianismo.

Judas acredita que, no último momento, Jesus se salvará, descendo da cruz, provando a todos ser o verdadeiro Messias. Foi o único dos apóstolos a permanecer junto dele até ao fim, e o único a não querer viver após a sua morte. Com a sua fé em Jesus, enquanto Messias, contribui para que este não seja aceite como profeta pelo seu povo. Nesse sentido, foi o primeiro cristão. Hoje poderíamos ter uma versão depurada do judaísmo e a Igreja nunca teria existido, nem a Inquisição, nem todas as perseguições que o mundo Cristão moveu aos Judeus.

Ben-Gurion surge como instrumento da influência britânica na região. A velha potência colonial opta por apoiar o lado mais fraco e menos numeroso, com quem pode construir vínculos de dependência, numa tentativa de restabelecer o domínio perdido. Se Ben-Gurion tivesse acreditado na convivência pacífica entre palestinianos e judeus, nunca teria criado um Estado Judaico, transformando o seu povo, antes perseguido, em perseguidor. Amos Oz, pela voz de Wald, confere-lhe uma leitura poética: …dois homens que amam a mesma mulher, dois povos que reivindicam a mesma terra, por muitos rios de café que bebam, esses rios não apagaram o ódio, as muitas águas não o extinguirão.

Amos Oz usa o sarcasmo de Wald para nos provocar sem nos dar respostas definitivas; neste livro, as teses ficam por escrever.

Se procurarmos o foco da escrita de Amos Oz, não o encontraremos na questão de Judas, ou na dor de Wald que perdeu o seu único filho numa guerra fratricida, ou na busca de Samuel por um lugar onde se esqueça de si próprio ou na concha em que a viúva Atalia se refugiou, em rejeição do mundo masculino. Teríamos de procurar no processo de escrita, nas suas hesitações, no seu discurso, por vezes, incontrolável, nos momentos de acalmia, perturbadores e belos, e no erotismo que se sente no ar e se agarra aos objetos. A forma curiosa, tantas vezes repetida como se de um tique estilístico se tratasse, que utilizou para descrever o caminhar de Samuel: curvado, primeiro a cabeça, sempre à frente, e depois o resto do corpo seguindo-a como se houvesse uma precedência naquele andar desajeitado. Será esse lado desajeitado e o ar mais velho conferido pelas barbas, que permitirá a Samuel aproximar-se de Atalia, a viúva do filho de Wald. A inacessível Atalia exerce um fascínio sobre Samuel, que perdura como uma reverberação prolongando-se para além da sua presença: Mas agora, ao sair, as suas ancas roçaram o cortinado de contas de estilo oriental que tapava a entrada. Mesmo depois de ela desaparecer, o cortinado continuou a ondular com o som da água a correr ou do sussurro das folhas, que Samuel desejava não terminasse depressa.

Existe nesta escrita uma tristeza, uma solidão monástica que nos convida a viver o luto pelo fim da convivência pacífica entre judeus e árabes, uma ténue esperança que se dissipa, tão inacessível como o amor de Atalia.

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