Um Postal de DetroitUm Postal de Detroit by João Ricardo Pedro

A 11 de Setembro de 1985, pelas 18:30 (sim, podemos dizer que foi o nosso 11 de Setembro), em Alcafache, deu-se a colisão de dois comboios de passageiros. Eis o evento que motiva a ação do livro. O narrador, logo nas primeiras linhas, assume-se como alguém sujeito a longas sessões de tratamento, cuja cura se pode alcançar por recurso a medicamentos, choques elétricos ou sessões que envolvam mesas pé-de-galo. Este é o nosso ponto de partida.

Quando os dois maquinistas se avistam, é demasiado tarde para evitar o acidente, apenas uma escassa fração de segundos os separa da morte. Mas o domínio do tempo é prerrogativa do narrador e ele é senhor absoluto desse instante. E chama-o a si como só a grande literatura pode ousar. Aqueles dois homens têm algo a dizer, a contar das suas vidas, uma história de infância que se confunde com a própria Criação, quando Deus deu asas aos pássaros e lhes disse para voar. Ao colocar na boca do pai do primeiro maquinista a frase: Tomem lá asas e voem, surpreende-se o narrador, e desafia o segundo maquinista a superar, como últimas palavras de um homem, esta evocação de um diálogo de infância.
Começa por provoca-lo com algumas inconfidências. Mas o segundo maquinista, ciente de que o destino não nos pertence, nem ao omnisciente narrador, conta-nos uma história misteriosa de uma mulher que, todas as noites, o aguarda na plataforma da estação de Vale dos Prazeres com um dos atacadores desapertados. O narrador demora-se numa imagem profundamente cinematográfica, o comboio deslizando pela plataforma, a sensação de permanecermos parados enquanto a paisagem desliza diante de nós como numa gigantesca tela de cinema. Uma história que se cruza com a realidade, como os sonhos parecem imiscuir-se nas nossas vidas, ou talvez seja o narrador que, não conseguindo aceitar a realidade, se refugia em histórias às quais vai acrescentando um pormenor, um outro ângulo ou ligando-as entre si numa improvável coexistência. Percebemos que sofre, também ele perdeu alguém que lhe era muito querido no acidente de Alcafache.Senhor do seu poder, o narrador concede aos dois maquinistas a honra de serem os primeiros a morrer.

Nesse tempo, o narrador, ainda uma criança, brinca com soldadinhos de chumbo, preparando emboscadas e participando em épicas batalhas entre índios e o Sétimo Regimento de Cavalaria. Fascinado pela irmã, que o proíbe de se aproximar ou de mexer nas suas coisas, acaba por reconstituir a vida de Marta a partir dos seus desenhos. A partir dos desenhos de Marta, encontrados dentro da mochila numa das carruagens do Sud-Express, o narrador vai partilhando a sua versão da história, cheia de inflexões e subliminares acusações ao papel dos diversos intervenientes. Em certas civilizações antigas acreditava-se que no Inferno corria um rio cujas águas podiam apagar a memória de quem as bebesse.

Por vezes, dentro da história abre-se uma janela, à qual assomamos, como se por momento desviássemos o olhar do essencial e a nossa atenção fosse captada por um pormenor distante e irrelevante, e um novo mundo, surpreendente, abre-se diante de nós. Uma possibilidade que até aí não havíamos ponderado, para depois regressarmos à história e nos apercebermos de que nunca a havíamos deixado. Nem o mais hábil narrador consegue escapar ao destino que lhe está reservado, quando muito, é-lhe permitido brincar com o tempo.

Este é um livro imbuído da magia da grande literatura, e mesmo quando a escrita desliza para o futebol, consegue dar-nos frases em que um jogador descortina linhas de passe onde os outros só vêem florestas de pernas. Entre os deuses, alguém concedeu asas a João Ricardo Pedro e o dom supremo de voar.

Este monstruoso concentrado de matéria disforme exercia uma força de atracção da qual era impossível escapar, criando à sua volta um labirinto de paredes curvas e intangíveis, em que todos os caminhos acabavam por conduzir invariavelmente ao seu centro. (jornalista descrevendo o local do acidente

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