O Amor em Lobito BayO Amor em Lobito Bay by Lídia Jorge

…mas eu tenho uma coisa má para contar.

A autora reuniu o material para estes contos a partir da distância que o tempo confere às nossas vivências e encontrou algo para nos contar e nem sempre coisas boas. São momentos, em que ficamos entregues à nossa fragilidade, recreados num registo poético e perturbador. Uma sabedoria que não se submete ao poder do acaso.

Em Lobito Bay, o ruído distante dos combates irrompe pelas ruas, são os libertadores que chegam celebrando a vitória. A mãe, que salvara o coração da andorinha, caída aos pés do filho mais novo, não consegue evitar que este assista à luta fratricida entre os libertadores de fações diferentes. O armistício da andorinha quebrado nas ruas de Lobito Bay.

Do pico da catedral, os homens de Deus receiam que Ele, que tudo sabe, seja incapaz de reconhecer a que doador pertence cada uma das telhas. Homens de fé procuram na ciência a chave que deviam encontrar nos seus corações. Uma mulher de azul procura o refúgio no peito dos viajantes com quem se cruza, e recorda-lhes o que de mal têm para contar. O estudante que falha a prova final porque se recusa a testar o seu limite emocional. A menina que borda peixes e sereias num lenço branco do pai, na esperança que ele leia, naqueles traços imprecisos, numa caligrafia sem nexo, a mensagem de amor que lhe dedicou.

São fragmentos, reminiscências que já habitaram outras leituras, fantasmas prontos a extinguirem-se mal cumpram o seu propósito, que encontramos nestes contos, num registo entre a violência e a acalmia. Se a história alimenta o mito, o leitor não precisa de acreditar.

O que seria da vida se não fosse o frémito do suspense?

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