Sobre a FinitudeSobre a Finitude by Günter Grass

Quando o fumador de cachimbo foi parar ao hospital, já só o sono buscava e pôs-se a lamber as feridas, ele que se sentia leve e livre como uma ave, como uma ave pronta a abater.

Logo no início o autor conta-nos um sonho em que mungia chocos debaixo de água que, entre o voluntário e o obrigado, libertavam a sua tinta, a escura nuvem com que confundem os inimigos. As memórias são da mesma natureza, pelo que o leitor é convidado a acompanhar, entre a prosa, a poesia e o desenho, diversas versões de um mesmo relato. São as formas alternativas que a vida assume aos nossos olhos, onde nada é definitivo. Se o desenho materializa a ideia, a palavra dá-lhe amplitude e liberdade para voar, para percorrer caminhos.

Não se dirige o autor a alguém em concreto ou a uma posteridade em necessidade de ser acautelada, estamos perante rumores, ruídos próprios de quem pretendendo ficar calado, ainda não aprendeu a virtude do silêncio. Na fase da finitude tornamo-nos sedentários, começamos então a prescindir de alguns prazeres. Neste livro surge um diário de pensamentos avulso, como uma lista de compras onde tudo é registado sem uma ordem cronológica, precedência ou hierarquia. Desde aquilo que o corpo nos vai negando, ao avanço neoliberal, ao lado concreto da morte e dos seus preparativos, às imagens que nos assaltam, às penas caídas do ninho ou do voo, já não importa. Os desenhos a carvão, com exceção de algum autorretrato, são sempre naturezas mortas: tudo no mundo natural cumpre o seu ciclo, não existem exceções. O que podemos fazer? Plantar árvores novas onde a tempestade derrubou as velhas?

Entre desenhos, poemas e reflexões Günter Grass deixa-nos aqui a tranquilidade que o acompanhou nos últimos degraus da sua existência, nesse tempo da finitude. Marcou os seus limites, não poupou outros. Lê-se em silêncio.

Alguém bem-intencionado aconselha-me a pôr o ponto final enquanto a mão não me treme.

PARA PASSAR O TEMPO

Voltar a ler o que há muito foi lido,
lançar ousados discursos nunca proferidos,
redatar a história ao contrário,
reanimar palavras já riscadas,
plantar árvores novas onde a tempestade
derrubou as velhas,
de olhos fechados acompanhar o esvoaçar de borboletas,
contar pacientemente as moscas mortas
que caíram das vidraças das janelas,
mascar lembranças como se fossem pastilhas
em que perdura ainda um resto de sabor,
afugentar o excesso de tempo
com adivinhas e outras distrações,
procurar o lugarzinho no cemitério
e, de vez em quando, enganar o relógio.

Em criança, nas praias do Báltico,
costumava erguer altos castelos
gotejando areia molhada à beira-mar;
mal acabados de fazer, ruíam,
cercados pela água e secados pelo vento
todos eles logo ruíam.

PenasPregos

Anúncios