Não Se Pode Morar Nos Olhos De Um GatoNão Se Pode Morar Nos Olhos De Um Gato by Ana Margarida de Carvalho

Uma mulher desconjura a padroeira da nau, uma santa de madeira com cabelos de índia, irresponsabilizando-a das suas funções. Naufragam as duas juntamente com a carga da nau, os seus escravos, os seus marinheiros, e os três cavalos que seguem a bordo e valem mais do que toda a carga junta.
Um escasso número de sobreviventes dá a uma pequena praia fustigada pelo mar. Trazem consigo a santa que um deles resgatou. O mar continua a não lhes dar descanso, mantendo-os prisioneiros daquela língua de areia rodeada de rochedos, como uma jangada de frágil equilíbrio, também ela em risco de naufragar. Debatem-se com as exigências próprias da sua sobrevivência. Impera a lei do mais forte mas com sabedoria, arte e lascívia a mulher mais velha acaba por se impor aos demais.

Aquele estranho grupo não foi escolhido ao acaso, isso percebe-se. Trazem histórias que os marcam, das quais tentam fugir, tanto quanto gostariam de encontrar uma saída para aquele cativeiro, sempre acossados pelo mar e pelos seus ciclos. Vamos conhecendo as suas mágoas, os seus segredos e a maldade humana retratada na sua época. A santa, autora da primeira advertência e a primeira a pressentir o naufrágio iminente, vai sendo consumida para ajudar no sustento dos náufragos, imagem perfeita de um desfigurado altar de catarse.

A escrita de Ana Margarida Carvalho abre este romance de forma avassaladora, de cortar o fôlego ao leitor, num virtuosismo de escrita que nunca abandona ao longo do livro. Estes personagens são dotados de voz própria, sem esquecer que, em todos os homens e mulheres, o choro se confunde. Todos têm algo a expurgar, pecados antigos para regurgitar, desde pequenas tropelias de infância a falhas bem mais graves, até crimes de sangue. Um padre acompanha-os, inútil para esse fim, mais vale que se confessem à santa mutilada. Expelem a sua dor de acordo com o seu falar, oscilando entre o dito popular, Pela boca já vira muito jaraqui sufocar, Navegar é preciso, viver… e o registo mais inspirado, A minha memória é uma vala comum. Esbatem-se todas as diferenças e tal como as suas roupas rasgadas já não lhes cobrem os corpos, vão despindo-se dos preconceitos. O leitor sem mais forças para resistir, entrega-se à sua condição de náufrago, aprisionado no fascínio desta escrita que, sem piedade, o arrasta no banquete de misérias que a autora oferece. Ódio, amor e desejos lascivos marcam a condição humana de quem, da sua salvação, apenas pode sonhar um deus.

Os seus corpos não são corpos, ai, que vos digo eu, são cabides de ódio e má fortuna.

mais sobre este livro aqui

Anúncios