Mulher de Porto PimMulher de Porto Pim by Antonio Tabucchi

O autor abre este seu livro sobre uma viagem aos Açores alertando-nos para o facto de a memória não ser impermeável à imaginação e de ele próprio ser propenso à mentira. Do tempo passado nos Açores, desse pé em terra, nasce um livro baseado em fragmentos que o autor transforma em histórias deliciosas. Na sua condição de resignado contador de histórias, deixa-nos um desabafo inicial: Tendo chegado a uma idade em que me parece mais digno cultivar ilusões do que veleidades, resignei-me ao destino de escrever segundo a minha índole. Dito isto, não espere o leitor um exercício historiográfico, um ensaio académico ou um exaustivo roteiro de viagens. Mulher de Porto Pim, é um livro que traga nas suas páginas a alma açoriana tal como a António Tabuchhi a sentiu.

A história dedicada ao poeta Antero de Quental é de uma arrepiante beleza apesar do inevitável desfecho da mesma. Sobre a infância feliz de Antero, deixa-nos este breve apontamento, onde tudo fica dito: Passava as manhãs no pátio de uma grande casa onde as mulheres guardavam as chaves dos armários e as janelas tinham cortinas de renda grossa. Ele corria e dava pequenos gritos alegres, e era feliz.

Um livro sobre os Açores não podia passar sem dedicar umas linhas às baleias, e considerando que a primeira edição é de 1983, Tabuchhi deixa-nos um alerta para um tipo de poluição que não é muito falada: a sonora. As baleias comunicam entre si através de sons que percorrem grandes distâncias, e que a crescente atividade humana interfere enchendo os oceanos com ruídos mecânicos, sonares, prospeção sísmica e outros ultrassons. As baleias, essas, continuam a emitir inutilmente sinais e apelos que vagueiam perdidos pelas profundezas dos mares. A sua curiosidade também se debruça sobre as regras do mar: em cada escaler existe um machado e um homem responsável por, no momento de perigo máximo, cortar a corda que liga a baleia aproada à embarcação, interrompendo a pesca e libertando o cetáceo. Essa decisão deve ser confiada ao arrais mais experiente e chamam-lhe cortar a linha, nas vidas humanas, no momento certo, também se corta o cordão umbilical.

A última história é a Mulher de Porto Pim e é um dos momentos mais altos do livro e um dos mais belos contos que tive a oportunidade de ler. Um velho baleeiro, trajando um fato tradicional, canta modinhas açorianas para entreter turistas. Repara no autor e apercebendo-se que este tem por ofício escutar as histórias dos outros, decide-lhe contar a sua. Começa por lhe confessar não ser grande cantor e de como é fraco e repetitivo o seu reportório, mas isso não interessa nada, os turistas apenas pretendem captar o pitoresco, e de regresso às suas terras contam que estiveram numa tasca, numa ilha perdida, onde um velho com um capote arcaico cantava o folclore do seu povo. Mas ele, o autor, busca algo de especial e o velho conta-lhe a sua história que começa com o canto das moreias que contém em si uma maldição. Na nossa vida podemos deixar muitos livros por ler, mas este conto é imperdível!

Mulher de Porto Pim é um livro pequeno que se lê de uma assentada mas o imenso prazer que nos confere dura para toda uma vida.

 

Sempre escolhi o demais na vida e isso é uma perdição, mas não há nada a fazer quando se nasce assim. (desabafo do velho baleiro no conto a Mulher do Porto Pim)

 

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