A FortunaA Fortuna by Cynthia D’Aprix Sweeney

Os Plumb reúnem-se num almoço para discutir um assunto de família: a Fortuna. Uma avultada soma de dinheiro que estavam prestes a herdar até que Leo, o irmão mais velho, teve o “acidente”. Combinaram entre si não consumir bebidas alcoólicas na presença de Leo e, por isso, o primeiro capítulo abre com cada um deles num bar diferente a tomar um coktail. A autora promete-nos uma história bem contada e isso é plenamente conseguido. Neste livro, para além dos Plumb, acontece Nova Iorque e a miríade de personagens e vivências que a cidade tem o potencial de acrescentar à ação. Personagens com vida própria e perfil distinto, que se impõem pela forma como conflituam com a vida dos Plumb.

O pai Plumb pretendia proteger os filhos de uma vida indolente que a fortuna lhes garantia, reservando-a para mais tarde, quando se encontrassem estabelecidos e com a maturidade suficiente para receber o dinheiro. Algo que os ajudaria, sem excessos, a compor uma vida já estabelecida. Mas os Plumb anteciparam despesas e compromissos na expetativa segura desse dinheiro. À exceção de Leo, viviam uma vida simples que só lhes permitia imaginar coisas vagamente inquietantes e perigosas. Quando Leo, alcoolizado e sob efeito de drogas, tem o acidente, tudo se modifica. A expetativa de perderem a Fortuna deixa-os prostrados, como se a sua salvação dependesse inteiramente daquele dinheiro dotado de qualidades regenerativas mágicas. Vão-se revelando, descobrindo mutuamente e o que encontram nem sempre lhes agrada: uma vida de adultos disfuncionais e uma mãe que não estava disposta a sacrificar-se por eles, pelo menos, não de livre e espontânea vontade, não com carinho. A expetativa da Fortuna teve um efeito nefasto sobre todos eles, algo que o pai Plumb não conseguira prever.

A autora demonstra uma segurança narrativa que lhe permite contar uma história complexa com uma desenvoltura e um fascínio que agarram o leitor. Partindo da psicologia de cada personagem cria os momentos de tensão que vão empurrando a história e os Plumb para uma situação ainda mais irreversível. As fisionomias são tratadas com elegância e eficácia. Traços breves caracterizam um rosto ou uma postura, como nesta descrição de Leo: em televisão, ele teria feito o papel de alguém ilustre.

Sim, a autora conta uma história e soube dar-lhe um final. Ficamos com saudades destes Plumb, dos seus egoísmos, dos projetos falhados e da descoberta da sexualidade das gémeas, que de uma cumplicidade perfeita, se encontram sobre caminhos diferentes quando uma delas assume uma sexualidade bicuriosa, e de Leo, o fascinante e perturbador Leo, capaz de fugir às suas responsabilidades com uma desconcertante elegância. A paz chega quando os irmãos se emancipam dele. Uma auspiciosa estreia de Cynthia D’Aprix Sweeney.

 

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