BichaBicha by William S Burroughs

Escrito em 1952, mas publicado só em 1985, Bicha relata o percurso de Lee no seu exílio pela América do Sul. Refugiado no México, enquanto aguarda que um processo nos EUA por posse ilegal de droga prescreva, decide interromper a sua vida ociosa e partir em busca do iagé, uma droga que confere poderes telepáticos. Inicia assim um périplo por diversas cidades da América do Sul. Homossexual assumido, tanto quanto o permite uma sociedade que ainda encara esse desvio como uma doença, chega a confessar a Allerton ter admitido pôr fim à sua existência que não lhe parecia oferecer mais do que desespero e humilhação grotesca. Essa carga social negativa e persecutória leva-o a trazer sempre consigo uma pistola. Os problemas com as autoridades são resolvidos com subornos.

Frequenta a comunidade gay, predominantemente americana, dispensando aos nativos apenas o interesse de um engate ocasional. O ambiente em que vive encontra-se saturado das mesmas caras, onde, como uma sombra, subsiste uma atmosfera de permanente disputa, desconfiança e tensão. As mulheres não lhe merecem grande atenção e quando se lhes refere, não é nada simpático: É verdade que eu não sou propriamente o melhor juiz para julgar coisas de gajas, mas a Alice tem escrito «foda merdosa» em toda aquela sua pessoa escanifrada e desenxabida.

Ao sentir-se perdido ou inseguro numa relação, solta o seu lado de louco, provavelmente herdado do tempo da sua absoluta dependência das drogas, e estende-se em perturbantes monólogos para os quais dispensa a necessidade de um público. São momentos oníricos e autobiográficos, em que invoca fantasmas de um passado, por vezes, bem recente. Nessas rábulas, o autor confere à sua escrita num tom de ressaca.

A pulsão sexual e o desejo, com o seu lado belo e repulsivo, são abordadas de forma aberta e assumida, sem nunca abandonar uma certa contensão, como nesta elipse em que descreve o ato sexual: O corpo inteirou-se em convulsões rígidas, centelhas a cintilar nos olhos e uma respiração que silvava entre os dentes. Aos poucos, os músculos foram relaxando, afastando-se do corpo do outro. Provavelmente a confirmar a frase que repete como um mantra: tudo tem limites.

Escrito num tom autobiográfico, a leitura deste livro não se pode dissociar da história pessoal do autor, do seu tempo e do ambiente que frequenta. A fim de enquadrar o leitor que se inicie agora na leitura de William S. Burroughs, existem duas notas que o asseguram na perfeição. Recomendo, contudo, deixar para o fim a leitura da Introdução, da responsabilidade do editor Olivier Harris. Já a nota final do tradutor português, José Lima, mais viva, surge como um complemento indispensável à leitura do livro. Bicha, uma das minhas leituras de verão que recomendo vivamente.

Sempre que te sentes ameaçado por uma presença hostil, emites uma espessa nuvem de amor como um polvo esguicha tinta.

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