Francisca fechou-se na gabardina e deslizou pela areia molhada, aproximando-se o mais que pôde das ondas, que são animais em fúria a enrolarem sobre si a pigmentação negra do céu. O mar expande-se a partir da hidra que se entreabre na espuma. Da rebentação, solta-se a angústia do magma profundo: o murmúrio da torrente que repentinamente recua. Depois as vagas voltam a avançar e espalham o seu borbulhar denso nos pés de Francisca, que caminha impassível com os sapatos vermelhos de salto alto na mão direita. Os relâmpagos escavam a curvatura do horizonte (chama-lhe a garganta de Deus) e um deles toca nos extremos, de norte a sul, como se fosse o último. Foi nesse instante que Francisca reparou nos insectos.

Por Mão Própria, de Luís Carmelo, 2016, Abysmo.

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