Por Mão PrópriaPor Mão Própria by Luís Carmelo

Um homem habita na frágil linha que separa a realidade do sonho, e mistura histórias com a arte dos curiosos, voltando a elas com uma intensidade quase física, táctil, como quem folheia as páginas de um livro. Francisca, a sereia, é uma mulher concreta que em determinado momento o autor vestiu de escamas, resgatando-a a uma dimensão mágica em que ambos se cruzam. É dessa forma que o autor vai fixando em texto as experiências vividas, num plot não linear e labiríntico, que nos envolve na sua leitura. Ao longo do romance, regressamos à mesma história, aos mesmos episódios, em que apenas muda o filtro com que encaramos a realidade. Uma consistente memória interpretativa do passado, elevada ao nível do exercício da escrita. Como se o autor/personagem sofresse de um estranho síndroma que leva a mente a misturar as imagens da percepção imediata com imagens de outros seres, de um modo exagerado e, por vezes, opressivo. Regressa, insistentemente, numa métrica quase perfeita, ao dia em que conheceu Francisca. Inicia então uma deriva narrativa, quase demencial, que empresta a cada novo episódio um colorido diferente, intenso e poético: Conheci a Francisca quando corria de fato de treino, num dia em que havia violinos ao longe

Luís Carmelo confere ao corpo da sua escrita uma plasticidade e amplitude que nunca fogem de tom, prendendo o leitor a um encantamento imprescritível. Este livro, o segundo de uma trilogia intitulada Sísifo, iniciada com Gnaisse, é uma hipnose literária com pontos de contacto com o primeiro livro: o recurso às prolepses, geometrias, animais e insetos. Finalmente, uma orografia de estranhos polígonos e um mapa-múndi desenhado no chão de um corredor, remete-nos para o seu projeto Mapa Mundo, um roteiro de cidades imaginadas.

O livro abre com um conjunto de ilustrações, de Daniel Lima, observando-as, reiniciamos a leitura deste romance numa outra dimensão.

No processo criativo de Luís Carmelo surgem imagens insólitas, prenhes da intrigante condição humana, como a amante que apenas atinge o clímax quando se lhe encosta um cubo de granito muito frio junto ao rabo. E o vórtice final em que encerra a história, transformando-a numa brincadeira de crianças, algo plausível porque, dando razão à sua frase, brincar é saturar as imagens.

Um texto nunca conta tudo. Um rosário nunca se acaba, pois regressa sempre à sua cruz. Nestas duas frases reside o segredo de toda a escrita, esse inesgotável campo de batalha e eterno retorno às histórias de infância em ciclos que fecham sobre si mesmos. A essência fulcral da grande literatura escrita pela mão própria de Luís Carmelo.

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