Uma Parte Errada de MimUma Parte Errada de Mim by Paulo M. Morais

Acreditar na sorte, não a que se encontra no jogo ou no amor, mas aquela a que nos agarramos nos momentos difíceis, porque nunca é fácil encarar a morte, ou falar dela. A esperança é apenas essa teimosia da sorte. O autor, no seu ano horribilis, vê tudo acontecer-lhe: a falta de emprego, o fim do casamento e o diagnóstico de um linfoma. Iniciam-se então os oito ciclos do tratamento em que o acompanhamos. Uma caminhada que se faz da presença dos amigos, de corredores de hospitais, máquinas ciclópicas, esperas intermináveis, livros, citações e presença nas redes sociais. Tal como o autor nos alerta logo no início, não esperemos uma lição de vida. Paulo M Morais deixa-nos um relato arejado, sério, numa escrita contida e de cativante maturidade. A dor é dor, não precisa de exercícios estilísticos para ser sentida, escreve nas redes sociais. O seu testemunho convida-nos a ser solidários, não procura a vitimização, a piedade ou a exaltação. Não hesita mesmo em recorrer a uma pontada de humor negro quando nos conta a reação de um amigo: Foda-se para essas merdas mariconças! Homem a sério tem, tipo, acidente de Harley!

Em momento algum esquecemos que existe dentro de si um cancro a afiar as garras, pronto a reclamar vitória. Acompanhamos esses ciclos de tratamento, violentos e debilitantes. Fragilizado, tem de resguardar-se do contacto com as outras pessoas, de afastar-se da sua filha, como se fosse da própria vida que se distancia.

Diversas fotos deixam um testemunho material do percurso do autor, quer da luta direta contra a doença, quer do percurso de vida que vai fazendo; a nova casa, o regresso à escrita, e os intermináveis exames. Os objetos insólitos que vai redescobrindo, como as chávenas de café de casca de ovo, fotografadas como uma elipse a unir épocas diferentes. Reflexões sobre o mundo de trabalho, sobre a forma de encarar a doença, a culpa, e até sobre a sua escrita para a qual, como um mantra, enuncia sete palavras-chave. Impossível não crescer em todo este processo, mesmo quando uma junta médica nos condena a uns oficiais 60% de incapacidade. A ser uma sombra sem um sol para a delinear no chão.

Escrever um livro sobre este período, fixar em texto a sua memória, é como arrumar livros numa estante, rapidamente nos vemos condenados a recorrer a fila dupla, escolhendo as lombadas a tapar. Ultrapassado o ciclo da recuperação, fecham-se as portas do armário livreiro e abrem-se outras, as da angústia da escrita, da dúvida de ser ou não escritor, como se fosse possível escapar à doença crónica de escrever. Não é fácil escrever sobre este tema na primeira pessoa, abrir aos outros uma parte tão sofrida da sua vida e fazer disso uma partilha para além do ciclo restrito de amigos e família, numa narrativa quase física, palpável, bem estruturada e de grande fôlego. Paulo M Morais oferece-nos uma obra de surpreendente leitura que nos ajuda a crescer, como se também tivéssemos vencido uma parte errada de nós.

Sobre o livro.

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