A VegetarianaA Vegetariana by Han Kang

Uma mulher nasce com uma mancha mongólica. Essa mulher tem um sonho terrível e transforma-se numa vegetariana. Não o faz por uma questão de saúde ou de respeito pelos animais, mas por causa do que lhe aconteceu nesse sonho.

O romance abre com o marido a explicar as razões do casamento, de como não lhe encontrou algo que sobressaísse, alguma beleza particular, ou aptidão especial, e, sendo assim, concluiu ser ela a mulher que lhe convinha, a que não perturbaria a sua calma e ordenada existência. Via em Yeong-hei a mulher mais trivial do mundo e deu-se por satisfeito.

Surgiu então o sonho que transformou Yeong-hei numa pessoa que se recusa a comer carne. E, a essa decisão, seguiu-se um desprendimento em relação ao seu corpo e a certas regras de comportamento social que irritam a sua família e embaraçam o marido, que acaba por a deixar.

O cunhado, artista de vídeo, procura para a sua próxima criação um tema erótico que não seja explicitamente sexual, algo calmo, profundo e privado. Quando a sua mulher, In-hye, lhe fala na mancha mongólica da irmã, desperta nele um crescente e perturbador interesse pela cunhada. Numa tentativa de aproximação, decide envolver Yeong-hei no seu projeto. A nova criação nascerá do corpo da cunhada, da sua mancha mongólica e da sua fixação pela natureza. Acredita ser essa a forma benigna dele próprio se libertar do crescente fascínio que sente por Yeong-hei. Decide pintar-lhe flores diretamente sobre o corpo nu. Mais do que uma nova pele, oferece-lhe um vislumbre do que ela mais deseja, transformar-se num outro fantástico e maravilhoso ser vivo: uma árvore. O cunhado não percebe o alheamento que Yeong-hei demonstra em relação ao seu corpo, num afastamento de si própria, que ele acaba por atribuir a um desprezo, a uma passividade em relação ao que lhe está a acontecer. Admite que, no interior de Yeong-hei, estejam a acontecer coisas terríveis, coisas que lhe prendem a atenção, fazendo parecer prosaico e banal tudo o que lhe sucede à superfície. Mas mesmo uma árvore exige a sua quota de respeito.

Apesar das reservas iniciais, o cunhado decide fazer parte da obra que está a criar. Pinta flores sobre o seu corpo nu, e une-se a Yeong-hei num jogo de pétalas sobrepostas, captando na câmara de filmar aquelas imagens que são, ao mesmo tempo, repelentes e irresistivelmente belas. A união perfeita num corpo híbrido de vegetal e humano.

In-hye surpreende os dois e, depois de visionar a filmagem, decide internar a irmã enquanto expulsa o marido de casa. Assiste então à metamorfose consciente de Yeong-hei, que se recusa a ser alimentada, e apenas deseja transformar-se numa árvore. Há muito In-hye sentia um grande vazio na sua vida que só consegue preencher com o filho. Também ela, um dia, munida de uma corda embrenhou-se na floresta, mas nenhuma árvore aceitou tirar-lhe a vida. Agora tem a oportunidade de abraçar a irmã, e de juntas iniciarem a busca pela árvore que lhes falta na vida.

A escrita de Han Kang atinge uma beleza que consegue ser, simultaneamente, surpreendente e perturbadora, revelando ao leitor, com uma apurada noção do tempo, a evolução dos seus personagens, do seu universo interior e das suas reais intenções. Neste romance oferece-nos um mundo sem saídas fáceis em que nos é vedado construir uma consciência alternativa, onde cada ser humano só se completa no seu semelhante.

Sabes, eu também tenho sonhos. Sonhos… e também podia deixar-me dissolver neles, deixar que eles tomassem conta de mim… Mas tenho a certeza de que há mais coisas além dos sonhos.

Sobre o livro e o autor.

 

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