A Gripe e o Naufrágio - como as notícias representam os riscosA Gripe e o Naufrágio – como as notícias representam os riscos by Gonçalo Pereira Rosa

A Gripe e o Naufrágio pretende estudar o comportamento dos media face ao risco iminente de saúde pública imerso num cenário de incerteza. Tomando como caso-de-estudo a gripe A de 2009/10 e o naufrágio do Prestige, na costa da Galiza em 2002, o autor procura avaliar a capacidade das autoridades em transmitir o risco aos jornalistas e, através destes, ao público.

Num cenário de incerteza científica que limitações enfrentam as autoridades na gestão de uma pandemia em tempo real?

Quando a gripe A eclodiu no México desconhecia-se o grau de contágio e as decisões foram tomadas com base no pior cenário possível e não em evidências suportadas por dados estatísticos. Face a uma mais do que expetável rápida evolução da epidemia tomaram-se medidas excecionais de contenção da sua propagação, mesmo antes de se calcular o risco real de contágio.

A gripe A e o lobby farmacêutico. Cartoon de António Jorge.
A gripe A e o lobby farmacêutico. Cartoon de António Jorge.

Numa época ainda insípida das redes sociais, a comunicação foi mantida dentro de um nível de contenção que permitiu uma elevada eficácia das medidas de prevenção da propagação do vírus, através da adesão voluntária do público. Quando a reação das autoridades é lenta ou inconsistente, permite a entrada de elementos especulativos no discurso jornalístico com o seu impacto económico negativo e tendência para gerar o alarme público ou alimentar teorias da conspiração. Hoje as redes sociais têm um alcance muito maior e escapam à filtragem que as redações dos media clássicos asseguram, permitindo a propagação de boatos e informações erróneas que criam no público uma perceção errada do risco e geram desconfiança em relação às reais intensões das autoridades de saúde pública, muitas das vezes sob suspeita de estarem reféns de interesses privados. As autoridades têm de adaptar o seu registo discursivo de forma a acomodar esta realidade no seu processo de comunicação.

No caso da cobertura da gripe A, a curva de maior interesse jornalístico não corresponde à curva de gravidade do problema (i.e., as semanas com mais óbitos). No caso do naufrágio do Prestige seguiu-se um modelo de cobertura jornalística de curto prazo, marcado por um pico de interesse nas primeiras semanas e por um rápido pico de saturação, mesmo que os trabalhos no terreno e o impacte económico perdurem durante muito tempo.
No caso da cobertura da gripe A, a curva de maior interesse jornalístico não corresponde à curva de gravidade do problema (i.e., as semanas com mais óbitos). No caso do naufrágio do Prestige seguiu-se um modelo de cobertura jornalística de curto prazo, marcado por um pico de interesse nas primeiras semanas e por um rápido pico de saturação, mesmo que os trabalhos no terreno e o impacte económico perdurem durante muito tempo.

A Gripe e o Naufrágio resulta da investigação feita pelo autor para a sua tese de doutoramento defendida no ISCTE em 2013 e contou com o apoio do já extinto Gabinete para os Meios de Comunicação Social. Neste trabalho ao autor procurou provar que as crises da sociedade de risco são mais abundantes do que no passado e que a informação que nos chega torna estas catástrofes anunciadas mais comuns e próximas. Foram entrevistados a ministra da saúde da altura, jornalistas, e profissionais ligados à saúde, bem como citada literatura especializada no assunto.

A linguagem é clara e acessível, mantendo sempre uma abordagem lúcida sem cedências emocionais. Dados estatísticos, em forma de tabelas ou gráficos, e recortes de jornais servem de suporte à exposição da tese. Os recortes humorísticos traçam o estado de alma do público em geral.

Este livro é uma excelente contribuição para conhecermos o sucesso com que o país enfrentou a ameaça da gripe A, permitindo traçar linhas de orientação para o futuro, bem como perceber os modelos de cobertura jornalística adotados pelos media em situações de risco social, ambiental ou de saúde pública.

As ameaças são circulares, repetem narrativas e uma sociedade informada assimilará melhor a dimensão real do risco se dispuser de informação válida, sóbria e objectiva.

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