Ainda na puberdade, o boato ganhava então força de homem feito e desatava numa correria por empedrados de ruas, ruelas e becos até desaguar no sol amplo das praças. Nos rossios, as vozes dos forasteiros, mercadores ou viandantes

palavreavam umas com as outras. As notícias enchiam a boca de criados, ávidos de levar a mesquinhez dos escândalos alheios para dentro dos salões palacianos. E, quando caíam nos ouvidos de cocheiros, criados e secretários, as palavras subiam num ápice os degraus da escala social até ao topo das torres dos senhores. Ventilavam-se histórias como perfumes feitos de essências raras. O poder aspirava o que lhe interessava e expelia o supérfluo, deixando pasmos os mensageiros. Um pestanejar ditava o fim do relato. As palavras voltavam a baixar das torres aos pátios, às cavalariças, às estrumeiras e às tabernas e, no caminho, diluíam-se. De repente, como um balão que sobe nos ares, o boato explodia e, desfeito, deixava de interessar, outro qualquer tornando o seu lugar.

Adoração, Cristina Drios, 2016, Teorema

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