AdoraçãoAdoração by Cristina Drios

A forma como a autora inicia este romance apela à contemplação e à leitura dos pormenores, como quem admira uma obra-prima. A cena de abertura, na praça do Teatro Massimo, é de uma delicada composição, onde as ações paralelas vão decorrendo, até que toda a atenção converge sobre o mesmo foco: o momento em que o homem sentado na esplanada é assassinado. Antonia Rei assiste ao sucedido, também ela surge como parte de uma composição mais vasta. A obra que Caravaggio pinta sobre a Natividade, enquanto aguarda, esperançoso, pelo indulto Papal, também apresenta uma composição particular: com um terço da tela a negro, os personagens convergem em adoração sobre o Menino recém-nascido, enquanto S. José volta a cara, afastando o olhar, deslocado como um figurante. Tal como o desconhecido que jaz morto em frente do Teatro Massimo, não passa de um figurante no jogo da Camorra pela afirmação do seu poder.

O quadro de Caravaggio, entretanto roubado e nunca mais recuperado, não será o único ponto de contacto entre épocas distantes. No tempo de Caravaggio, o poder das grandes casas senhoriais, da Inquisição e das ordens religiosas, perturba a paz, como naqueles dias a máfia impõe o seu desassossego, a escuridão terrífica, eliminando inimigos, delatores e elementos da justiça, sejam eles polícias ou juízes. Não são tempos inseguros, nunca o foram, todas as balas trazem o nome do seu destinatário. Isso mesmo constata o comissário da polícia ao encontrar semelhanças com a violência da Roma do tempo de Caravaggio. Antonia Rei é uma anónima testemunha do crime da praça do Teatro Massimo, que ao demorar-se a recuperar o cão do falecido, acaba por conhecer o comissário da polícia Salvatore Amato.

No escritório encontra um caderno preto, tal como na cripta escondida por baixo do pátio do palácio, onde vive com o pai, foi descoberto um fólio contendo um testamento onde se encontra a confissão de uma admiração sem limites. E tudo isso se relaciona com Caravaggio.

O perfil do mestre vai-nos sendo revelado numa construção serena e lenta, num crescendo de boémio a homicida. Conhecemos a propensão para os desmandos, farras e bebedeiras, e só depois sabemos que aguarda o indulto pontifício que o livre da pena capital por ter cometido um homicídio. O nome da vítima é-nos revelado, mesmo antes de conhecermos os detalhes do que se passou. Quando o personagem do pintor se encontra mais consolidado, a autora não hesita em endurecer a linguagem, apresentando o mestre como alguém com queda para se ver envolvido em rixas, prisões e consequentes processos-crime. Alguém que matou e fugiu. Enquanto criativo, é de um génio ímpar. Dedica-se à sua arte com paixão, deixando-se consumir por inteiro quando está imerso na sua obra, recolhido no seu próprio talento como a ostra na concha. Caravaggio escolhe para figurantes a gente pobre do povo, a voz da própria insignificância, os seus traços pouco nobres dão rosto às figuras bíblicas, o que no seu tempo foi considerado um ultraje.

Cristina Drios trata os seus recursos estilísticos com agilidade e a segurança de uma paleta virtuosa: …sirenes a rolar uma luz azul e um silvo intermitente e agudoPalermo já arde lá fora, o sol lambendo-lhe cada pedra… a cruz de vigário castrense pendeu no vazio antes de voltar a bater-lhe no peito com asas de pássaro agoirento. Ou ainda: O Outono acabara de trazer folhas soltas como notas de música pelo ar.

Neste romance existe um permanente desencontro, marcado pela obra de um mestre genial mas de trato difícil, que enquanto foragido, deixou um quadro, entretanto, desaparecido para sempre, numa maldição que recai sobre todos como um pecado por expiar. Antonia Rei, inocente, encontra a sua paz, no último ato do polícia que a interpelou na praça do Teatro Massimo. É a única a contemplar o verdadeiro rosto de quem virou a cara e desviou o olhar do seu objeto de Adoração, afastando-se. Esse rosto encontra em Antonina o seu perdão, e quem sabe, até o verdadeiro mistério da tela de Caravaggio. Na escrita de Cristina Drios existe o retrato de uma humanidade que não se conforma com a sua dor e acredita na salvação até ao último momento, em que se encontra a sós com as asas negras da Morte.

Nota: para quem gosta de sinopses, pode encontrá-la aqui.

 

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