Os Contos da PesteOs Contos da Peste by Mario Vargas Llosa

Mario Vargas Llosa recria, numa peça de teatro, o clássico Decamerón, de Giovanni Boccaccio, transformando o escritor florentino num dos seus personagens. Quando a peça estreia em Madrid, Vargas Llosa reserva para si o papel de Boccaccio. Em Decamerón, Boccaccio, autor erudito, abandona o latim e escreve em língua vernácula uma obra dramática onde um grupo de jovens se refugia numa quinta nos arredores da sitiada cidade de Florença, tomada pela peste Os jovens acreditam que resguardando-se num mundo de fantasia conseguem fugir à morte. Vargas Llosa retoma a ilusão de controlar o destino através de um universo inventado e, desse modo, escapar a uma fatalidade mundana, criando um labirinto onde a peste se perca e não encontre os contistas. À medida que caminhamos nesse mundo de fantasia, vamos descobrindo o quanto estamos presos à natureza humana, escravizada pelas suas mais baixas paixões e incapaz de se redimir.

No início do livro, como num prólogo, temos um texto onde o autor faz uma análise da obra original e revela como ela o inspirou. Boccaccio fez o percurso de príncipe do conhecimento, como lhe chama um dos personagens, a escritor popular, deixando-se tocar pelo lado mais cru e brutal da vida. Mário Vargas Llosa cria uma reflexão sobre o homem liberto dos seus receios que se dedica à fruição dos instintos e apetites mais vis. Ao “abolirem” os códigos de conduta social a que sempre se sujeitaram, os hóspedes da quinta dão asas à imaginação. O burlesco e o sentido de humor são os seus novos limites. Os criados da quinta acabam por fugir ou morrer, não devido à sua baixa condição social, mas pelo facto de não terem entrado no mundo de fantasia que os teria protegido. O personagem Boccaccio não se cansa de apregoar o antídoto para a peste: viver numa selva de histórias a que a peste não saberá alcançar. Acredita no valor sagrado da palavra e no seu poder de salvação. Cristo socorreu-se dela para espalhar a sua verdade. Boccaccio, o personagem, não percebe que ele, ao contrário dos seus companheiros, é o único a perder algo de muito seu. Ao se propor escrever contos de taberna, de humor rude e ao alcance de todos, renuncia ao primado do conhecimento em que sempre viveu. Será esse o preço que aceita pagar por ter sido poupado à peste?

Duque Ugolino: …Não paguei já o bastante? Nunca me redimirei?

Condessa de Santa Cruz: Nunca. Nem que passasses a eternidade alimentando as chamas do inferno, Ugolino.

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