luz_em_agostoLuz em Agosto by William Faulkner

Este é um romance sobre o equívoco, essa mão errada sobre o nossos destino. Uma jovem grávida parte ao encontro do homem que lhe fez o filho, e de quem acredita estar noiva. Chega a uma terra onde trabalha alguém com o nome parecido ao do seu noivo. Uma vez desfeito o equívoco, o homem presta-se a tomar o lugar do noivo fugitivo. Um outro personagem, velho e branco, entra nas igrejas dos negros e, tomando o púlpito, grita palavras racistas cheias de ódio, e a assembleia escuta-o de forma passiva, sem o entender. Talvez pensassem que era Deus em pessoa, pois para eles Deus era um homem branco e também achavam por vezes os seus atos difíceis de explicar.

Um homem branco, de seu nome Natal, julga ter sangue negro, e mata uma mulher mais velha que era sua amante, por esta, nas suas orações, interceder por si. Natal atribui o mal que o atormenta à maldição do sangue negro que lhe corre nas veias, e tudo isto se passa numa terra onde o peso do sangue antigo, do sangue branco, é lei e tudo o resto parece apenas desafiar a vontade do Senhor. O que Natal desconhece é que não é o sangue negro, essa eterna corrupção da alma humana que o condena, mas o preconceito, o medo antigo, passado de geração em geração até condenar toda a humanidade às trevas em que se deixa subjugar. Depois, existe o narrador que se detém a reviver cada história numa perspetiva diferente, recorrendo a novos personagens, cuja única função é a de nos recontar a história, porque na palavra humana nada é definitivo. O homem que pretendia ser padre e o conseguiu durante algum tempo, entende finalmente porque a palavra amor foi colocada no Grande Livro. De como agora se revela falso o livro mais profundo do mundo, quando aplicado à vida real!

Faulkner descreve de forma magistral o ser humano, o modo como os homens desvanecem em submissão, sem diminuir em tamanho e aos poucos, como se o medo fosse ganhando coragem, se agigantam para em grupo fazer justiça sobre um pobre desgraçado, perdido na sua má sorte. As mulheres, resignadas, apenas se altivam nas palavras quando saem em defesa dos filhos. O trabalho incerto e a fome sempre presente, a mais fiel das companheiras. A dureza das fisionomias, talhadas para uma vida de trabalho e sofrimento. Os negros com a estolidez inane da sua raça indolente. A infindável matéria prima humana de um romance universal.

Neste livro encontramos, em toda a sua extensão, as trevas que ensombram a humanidade, e se a sorte sorri, é como um homem a soprar com força na corneta sem saber tocar, à espera que a música saia afinada.

Tal como o fulano que vai a fugir de uma arma ou a correr para ela não tem tempo para se preocupar em saber se a palavra certa para o que está a fazer é coragem ou cobardia.

 

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