A GaivotaA Gaivota de Sándor Márai

Um homem fixa as mãos que tremem. Terminou um documento que no dia seguinte será lei, essas palavras vão ganhar vida e agir sozinhas, penetrando no tecido da vida, alterando o destino de todos. Uma vez ratificadas pelo ministro, mudarão o curso do seu país numa Europa em guerra. O homem em causa é um alto quadro do ministério e imagina já não ser jovem quando a guerra terminar, tal como tudo o que foi destruído não voltará ao seu lugar, seja nas cidades ou nas almas humanas. Sente ter cumprido o seu dever, ter realizado algo para além das forças humanas poderem contrariar. O que começou não pode mais ser parado. Mas exatamente o quê? Nada nos é dito. Apenas assistimos às reflexões deste homem de mãos pálidas a taparem-lhe o rosto.

O alto funcionário do ministério recebe uma visita, uma estrangeira vem pedir um favor na emissão de um visto de residência. Quando a vê, percebe que os fantasmas não nos visitam só à noite. Aquela mulher, em tempos, já fez parte da sua vida, numa altura em que ela lhe propôs que abraçassem juntos a morte e ele não podia cumprir esse desejo. A mulher amada optou pelo veneno, deixou o rio entregue às gaivotas, que em voo picado simulam a queda livre dos suicidas. Agora, uma estrangeira aparece-lhe no corpo da amada que já não existe. Qual o significado daquela aparição? Num impulso, o alto funcionário do ministério convida a estrangeira a acompanhá-lo à ópera. Inicia-se assim um diálogo, por vezes transformado num longo monólogo, em que a fala de um, anula o discurso do outro, remetido para o papel da escuta. As palavras dele carregam a paixão com que um homem responde ao mundo.

Na ópera, uma multidão reage com os mesmos gestos, os comportamentos sociais massificados arrastam consigo uma certa infantilidade. Os presentes ignoram o que se passará no dia seguinte, só ele conhece a verdade. Ele e a mulher que o acompanha, mas essa situação não é nova para ela. Em França, nos arredores de Paris, na véspera do país entrar em guerra, também acompanhou um velho general que era o único a deter esse segredo. Era um homem poderoso porque sabia algo que os demais ignoravam.

O alto funcionário do ministério pergunta à jovem porque abandonou o seu país em guerra, ao que ela responde: A Finlândia tem muitos amigos no mundo e vale a pena procurá-los. Aquela mulher não se esconde num simples jogo de máscaras, a reencarnar um fantasma do passado, isso podemos deduzir das suas palavras. Estamos perante alguém perseguido por um mistério onde, provavelmente, não existem coincidências. Ela não lhe foi enviada através dos labirintos do mundo, para retomar o que a sua amada deixou. Não lhe pertence, tal como a sua amada não lhe chegou a pertencer. Poderá existir no passado das duas, um homem em comum?

A escrita magistral de Sándor Márai agarra-nos a cada frase, à lentidão como sabiamente vai deixando o narrador desempenhar o seu papel, confiando a cada personagem o seu momento de protagonismo, certo de que só na sabedoria encontraremos o lugar que nos foi reservado na vida, no amor ou na guerra. Um livro de leitura obrigatória, sobretudo para quem apreciou o As velas ardem até ao fim.

Caminhamos sempre na direção do outro que, um dia, nos beijará.

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