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Essa puta tão distinta, de Juan Marsé

As ciladas da memória como plot. A memória individual, de alguém que cometeu um crime e não se lembra do motivo, ou a memória coletiva que subsiste nas bolhas tóxicas do franquismo que ainda moldam a sociedade espanhola. A desmemória que potencia os erros que a história insiste em repetir. O narrador, romancista célebre por abordar os aspetos mais negros do Franquismo pós-guerra, aceita escrever um guião para um cineasta obcecado pela denuncia política, numa exaltação ideológica marcada no tempo. O argumentista detesta os maneirismos do cinema espanhol do tempo de Franco, dotados de  uma grande eficácia cómica, embora involuntária, que ainda persistem sobre a capa de uma denúncia política. Não pode estar menos entusiasmado com a encomenda que recebe: um argumento fiel aos factos, sem o esboço de um enredo, refreando a imaginação. O objetivo do filme, segundo o realizador, não é resolver um crime – uma vez que todos eram vítimas do sistema político – mas expor o ser humano real como o centro da intriga.
No primeiro capítulo, um enumerado de respostas a uma entrevista, surge como pretexto para nos oferecer o mote do livro. O romancista demonstra não ter paciência para perguntas gastas e sem sentido. Os clichés exasperam-no. Estamos na presença de alguém que aprecia ser estimulado de forma inteligente, papel que está reservado à sua empregada doméstica, com os seus enigmas e feitio intrometido. Os intelectuais ligados à produção do filme e autores da encomenda cansam-no, chegam mesmo a desafiar o seu bom humor. As vicissitudes do financiamento público a iniciativas privadas vai sacudindo o projeto. Entra em cena um novo produtor, interessado em retratar uma realidade mundana e mais lucrativa. O argumentista, desejoso de chegar ao fim da encomenda, confere ao guião um toque de psicodrama que vai tornando o argumento mais apelativo e dotado de uma maior consistência narrativa. Ao entrevistar Fermín Sicart, o projecionista que cumpriu pena por ter assassinado uma prostituta na cabine de projeção do cinema Delícias, vai dando corpo às reviravoltas exigidas por um plot que surpreenda o espetador. O móbil do crime vai evoluindo em confronto com a desmemória de Sicart, a sua infância e a relação com a mãe. O sentimento de fracasso que o romancista padece desde o início, encontra a alegoria perfeita na humilhação que sofre, sempre que se lança à piscina e é ultrapassado pelo vigor natatório da idosa senhora Falp. Para cúmulo, e por imposição do novo produtor do filme, vê uma personagem secundária – uma prostituta cega – roubar-lhe o projeto, tornando-se ela própria a narradora da história. O humor cáustico não lhe serve de consolo, mesmo quando, numa tentativa de irritar o novo produtor, descreve a nova personagem como uma puta católica romana que todos os domingos se ajoelha em frente do altar a rezar e se guia nas artes da sua profissão pelo tato e pelas apalpadelas.

O único personagem real é o próprio Sicart. Surge do passado, na sua postura afetada e meio desmiolado, para nos recordar que a realidade será sempre aquilo que optamos por não esquecer. Ele é a vítima perfeita que dá corpo a todas as denúncias Se existem por aí umas bolhas tóxicas por rebentar, o melhor é não agitar.

ao vê-lo ali de pé, olhando as últimas luzes do dia como se esperasse delas algu sinal, senti de súbito que algo indefinível me compelia a pôr-me no lugar dele e a observar o perfil da cidade com os seus olhos descrentes

Sobre o livro.

 

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