tres_maresTrês mares, de José Luís Outono.

Restam as margens, diz o poeta. De que margens se despede este mar?

Este é um livro marcado por uma visão aberta ao mundo, esse imenso mar perturbado por contornos nublosos, agitado pelo sofrimento humano que rouba cores à escrita. Um mundo-mar sob um olhar que não esconde o sofrimento, distanciando-se de si próprio, quase nos seus antípodas. Uma imensa vontade em desmontar o circo do poder e denunciar as matemáticas que subtraem humanidades à nossa consciência coletiva.

Reflexões sobre o legado que deixamos às gerações vindouras, formuladas num diálogo intimo, quase impossível de passar ao papel. Compromisso que o distancia da sua musa inspiradora: Desculpa, meu amor, mas hoje mergulhei em águas sofredoras… Estamos perante uma realidade que não se pode apagar como uma fotografia.

Em tempos afogados o amor é um diamante raro. Essa é a primeira nota do ato de comunicar em José Luís Outono, na sua insubmissa escrita existe sempre uma concessão ao amor, tal como os grandes felinos são atreitos a ronronar. O sentido de humor, tão presente, permite-lhe brincar com a sua própria poesia ao repescar e reescrever o poema Sabes; a mesma estrutura, o mesmo sentido, agora servidos por outras palavras.

Em Mar de Sentidos, já se detetava uma mudança no foco poético, sem anunciar um fim de ciclo. Este poeta escreverá até que o papel se encha de rugas, esbatido pelo tempo, sem se prostrar diante das etapas da vida. A sua voz continua viva, desperta, pronta a seguir o olhar. Escrevendo-se, repetindo-se ansiosamente, em arremessos de maré, ousando entrar no jogo das palavras enamoradas. Sem antecipar esse mar calmo e natural que, como tudo na vida, termina num mergulho apaziguador e final.

O mar, sempre o mar, essa força livre, fascínio passado de geração em geração, sem expectativas programadas, local mítico onde não se extinguem os rios nem a foz seca a nascente.

Apenas

Apenas
Um pouco de ar puro,
onde nasçam manhãs,
e adormeçam noites.
Apenas…

Nota final: José Luís Outono ilustra o seu livro com desenhos da sua autoria, olhares sobre os recantos que o marcaram, momentos repescados ao passado, como a ilustração-poema roubada a um rascunho de janeiro de 1974, feito na Guiné, quando aí prestava serviço.

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