a_sebenta_maA Sebenta do Tempo, de Mário Augusto

Este manual de memórias para esquecidos oferece-nos um percurso pelas imagens, objetos, filmes, heróis da banda desenhada e hábitos que alguém, nascido na década de 60, não deixará de recordar com alguma nostalgia. Para os mais novos é uma viagem iniciática a um mundo que, de tão distante, terão alguma dificuldade em acreditar ter sido a realidade dos seus pais e à qual sobreviveram. Nas notas laterais, o autor relata-nos a sua própria experiência ou brinda-nos com alguma curiosidade histórica sobre o tema. Descobri que o primeiro beijo inter-racial da televisão aconteceu na série Espaço:1999 ou, para citar mais um exemplo, fiquei a par da história por detrás do quadro do menino da lágrima.

Este livro não se resume à mera exposição de objetos anacrónicos, mas aos usos e costumes de toda uma sociedade e de uma época. Recordamos o que representou a primeira novela brasileira a ser transmitida, ou outras séries de culto, como o programa TV rural, um sucesso que marcou três décadas de televisão! Ou a memória sonora das ladainhas do nosso tempo de escola: saber a lengalenga dos caminhos de ferro de Angola ou por onde passava o rio Zambeze em Moçambique… e tudo dito naquele sincopado posto em música com que cantarolávamos a tabuada, de cor e salteado…

tapeEstas memórias não são exclusivas dos portugueses, muitas delas foram, no seu tempo, um fenómeno à escala global. Eu, que vim de Moçambique, à parte dos programas de televisão e da Coca-Cola, revejo-me na sua maioria. É a similitude de olhar de que fala Pacheco Pereira no prefácio.

Na ausência da internet ou de outros gadgets eletrónicos, o colecionismo era algo muito forte e transversal a todas as idades, algo similar ao fenómeno atual do jogo do Pókemon. Contudo, as coleções de selos ou de cromos, não são o antecedente direto dos pókemons. No colecionismo existia uma ligação emocional, tantas vezes incutida pela família. Os cromos e os selos promoviam o conhecimento e a descoberta, não se resumiam a um consumo imediato ou a uma moda sazonal. A quantidade não era o seu objetivo principal. A troca e a partilha de selos ou cromos, representava um lado social muito forte na atividade de colecionismo (o jogo do Pókemon inspirou-se, em parte, nesta dinâmica).

harrisonMário Augusto oferece-nos um livro de culto, uma prenda de Natal fantástica para quem nasceu antes da década de 60. Numa escrita bem-humorada, este livro encontra-se estruturado por temas, que abrem com uma nota justificativa do autor. Um grafismo cuidado e muito bem conseguido, da autoria de José Dias, confere ao livro uma dinâmica que torna a sua leitura muito apelativa.

Esta sebenta é uma viagem a um mundo de sonhos, que foi o nosso e que agora podemos partilhar com os mais novos, porque em cada objeto, em cada filme, em cada herói (já esquecido), encontramos a emoção de termos sido jovens ou adolescentes. E esse sentimento nunca mudará com o tempo, nem com os seus objetos de culto ou os seus heróis. Em todas as épocas há um tempo na vida que nunca se pode deixar de evocar. Nem de recordar.

Sobre o livro.

A entrevista na Feira do Livro de Lisboa – 3-6-2017

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