um-otimista-na-americaUm Otimista na América, de Italo Calvino

O autor, em visita à América, assume que gosta de viajar fora da literatura. Atravessa o Atlântico na lentidão anacrónica de um paquete, viagem que lhe proporciona a primeira impressão dos americanos, gente que disfruta de um bem-estar sem impulso, de pobreza de recursos vitais interiores. Enfim, um tédio.

Ao chegar a Nova Iorque as suas convicções sobre a América e sobre o genuíno americano são postas em causa. A primeira impressão do viajante em Nova Iorque é que de modo nenhum  a América está americanizada, que estamos mais americanizados nós do que eles. A começar pelo fato de nenhum nova-iorquino possuir uma viatura, desde logo, por não encontrar onde a estacionar. Essa dificuldade leva o autor a alugar um cavalo para percorrer a cidade. Rapidamente se cura dessas ideias e decide seguir a corrente e acatar os conselhos que lhe vão dando.

Nas suas conjunturas sobre o futuro – estamos entre os anos de 1959 e 1960 – imagina uma industrialização confiada a robots, visão que será desmentida nos dias de hoje, em que a globalização deslocalizou as fábricas, encontrando, noutras paragens, os seus escravos humanos, mais baratos do que os robots. Também percebemos ser infundada a sua esperança nas novas gerações, mais escolarizadas e a frequentar as universidades. A paisagem urbana fascina-o; a sua constante renovação devida ao aparecimento de novos edifícios, e em consequência das migrações sociais, com as diversas classes de migrantes a conquistarem novos espaços, ocupando bairros deixados livres pelo desafogo económico, entretanto adquirido, pelos seus antigos habitantes. Fora de Nova Iorque encontra a pressão paisagística dos carros, na sua maioria de cores claras, colorindo as grandes extensões dos parques de estacionamento. A imagem da América, tal como a concebia, começa a materializar-se. Italo Calvino visita as principais cidades e debruça-se sobre as suas particularidades, sempre fixando-se no tecido humano em detrimento das paisagens ou monumentos. Encontra uma América fortemente marcada pela geografia, pela religião e pelos grupos étnicos; industrializada e protestante que sobre a inteligência da máquina produtiva coloca o patrão, num plano de autoridade quase divina. Uma América que cresceu empurrando as suas fronteiras cada vez mais para oeste, e agora cresce pela exportação, num expansionismo territorial diferente do imperialismo colonial europeu, e em contraste com o isolacionismo da sua elite de direita. O expansionismo americano realiza-se com as mercadorias, os negócios, com a área do dólar

Como observador externo privilegiado, confronta-se com o American way of life sedimentado num bem-estar proporcionado por comodidades adquiridas, uma pretensão programática de ficar satisfeito consigo mesmo, e a emancipação da mulher, autónoma e senhora da sua sexualidade. A cultura de massas fomentando a passagem do estado de barbárie – do qual se pretende fugir – para o da decadência materialista. A autonomia estadual que permitiu a entrada do Texas na Segunda Guerra Mundial – ao lado da força expedicionária Canadiana – antes da própria Confederação (o que só aconteceu após Pearl Harbor).

A escrita de Italo Calvino prima por uma elegância que em momento algum é posta em causa, e mesmo quando se contradiz, assume mudar de opinião à medida que vai prosseguindo a sua viagem. O seu sentido de humor leva-o a considerar, como uma das regras do perfeito viajante, fazer o papel de imbecil sempre que isso contribua para o enriquecimento do seu conhecimento. O regresso final a Nova Iorque redime-o totalmente com a cidade, confessando sentir-se em casa. Este retrato humano e lúcido da América, na sua essência, continua atual e é fruto de um olhar iluminado por um espírito brilhante. Um livro indispensável para se conhecer a América.

Nas zonas subdesenvolvidas italianas não se pode fugir à responsabilidade, ao remorso de fazer parte de um mundo privilegiado; aqui pode-se esquecê-lo. O segredo da América reside todo neste esquecimento dos remorsos. Mas não é também a grande fraqueza da América, o seu perigoso não compreender (não querer compreender? Ou não conseguir compreender?) o resto do mundo?

sobre o livro

 

Anúncios