macunaima_lcMacunaíma no meu pátio, de Luís Carmelo

Não conheço escritor melhor talhado para a tarefa de recrear esta obra de Mário Andrade do que Luís Carmelo. O seu universo criativo mergulha frequentemente na volúpia do imaginário que se casa com a natureza própria das grandes lendas.

Macunaíma nasceu índio e preto retinto e, se houvesse dúvidas sobre o seu destino, o seu criador, Mário Andrade, acrescenta-lhe o epíteto de filho do medo da noite. Macunaíma personifica o lado mais profundo do povo brasileiro que espreita a realidade a partir da sua cultura, do colorido das suas crenças e lendas índias, alimentadas pela forte relação com uma natureza polimórfica. A obra é uma crítica à forma como o Brasil moderno e erudito olha para as suas raízes primitivas, que não entende e, por isso, considera indolentes. O índio surge, nesse contexto urbano, como um anti-herói, preguiçoso e trapaceiro.

O original é de difícil leitura para um europeu que não consiga descodificar a profusão do léxico associado à riquíssima fauna e flora brasileira. Contudo, a mensagem do anti-herói mantém-se universal.

Luís Carmelo recria a obra a partir do seu pátio de couves espigadas. Macunaíma mantém o apelo de menino desejado e imbuído de um imaginário dúplice e provocador, aquele que transformava água em lama e lama em ouro. À força crítica que Mário andrade imprime à sua obra, responde Luís Carmelo com uma linguagem poética: Macunaíma tinha a lentidão do barro, ou O pátio era a medula do mundo e não havia zangão que dele saísse.

À luz da nossa “cultura erudita”, a realidade da floresta amazónica pode permanecer de tal forma indizível que se resume à dimensão de uma praça rodeada pelas paredes do pátio das couves espigadas. Mesmo com a desconstrução temporal e espacial da escrita, caminhamos em círculos dentro de uma lenda que, a cada volta, nos é recontada de forma diferente; esse é o segredo da sua libertação. Ai que preguiça, defende-se Macunaíma.

Se a descoberta tem sempre um lado de estranheza e de precipício, é natural que o mundo se encurve à nossa caminhada, e as histórias viagem através dos tempos no voo de um piriquito-de-asa-amarela.

Pode encontrar esta obra aqui.

Anúncios