a_escada_tsA Escada de Istambul, de Tiago Salazar

O autor cruza-se com um turco numa escada em Istambul. Uma escada que se bifurca a meio para se reunir mais acima; o mesmo início e o mesmo fim, alcançados por caminhos distintos. Em tempos serviu de acesso a uma escola onde se praticava o ensino das religiões professadas pelos homens daquela cidade. Filhos de um mesmo Deus, caminhando por vias diferentes ao Seu encontro. Um mistério desprende-se daquela escada, uma história tão forte que se quer contar sozinha, e o turco Mehte será o seu confidente.

Tiago Salazar é um apaixonado pela paisagem humana que habita o nosso planeta. O seu olhar estende-se do interior dos personagens ao mundo que os rodeia, não só ao mundo físico, mas sobretudo, à ideia que fazem dele. A escada de Istambul foi construída pela família judia dos Camondo e fazia parte de um projeto idealizado para retribuir à cidade a prosperidade que lhes proporcionara. Uma missão maior do que todos os Camondo e homens juntos. Não se propunha uma nova religião que unisse todas as outras, nem uma que reduzisse os homens à sua qualidade de servos, o que, certamente, seria do agrado do poder. Mais do que praticar a caridade, os Camondo promoviam o conhecimento, a única dádiva que liberta e resgata os povos da miséria ancestral.

Várias gerações dos Camondo desfilam neste romance, sempre marcados pela sua relação com a cidade de Istambul e o sonho de retribuir aos homens o muito que a vida lhes proporcionou. Fazem-no de forma discreta, sem procurar o fausto e a ostentação social, apanágio de certos judeus aristocratas.

A narração sujeita ao ponto de vista de Mehte perde, por vezes, ao dar-nos personagens a preto e branco: o bem ao lado dos Camondo, e o mal ao lado do sultão ou do revoltado Stoner (assassino e ateu), a humildade dos Camondo contrapondo à ostentação dos Rothschild. Isso perverte a forma ampla como o autor aborda o sentido de missão dos Camondo em diálogos fortes e bem construídos. Percebe-se que o autor tenha entregue a narração ao ponto de vista de um turco, isso permite-lhe o distanciamento religioso e de sangue que torna o relato mais credível. Um mesmo sentido de nacionalismo une Mehte aos Camondo. Estes últimos, apesar da sua condição de judeus errantes, nutrem por Istambul um carinho especial.

Tiago Salazar habita este romance como se fosse um turista em permanente descoberta, o realizador de um documentário que recolhe junto de Mehte pedaços de uma história que regista em livro. Saltamos muitas das vezes das palavras do turco para uma panorâmica sobre a cidade, passando a narração para a terceira pessoa. A sua narrativa oferece-nos momentos de puro fascínio, como quando descreve Clara a amamentar o filho: …mãe e filho, unidos como tronco e rebento nutridos pela mesma seiva. De escrita elegante, cativa facilmente o leitor, e tem a amplitude de envolver no interior dos personagens a imensidão do mundo que as rodeia.

A Escada de Istambul, é a auspiciosa estreia de Tiago Salazar na arte do romance, uma escrita com o poder de conquistar leitores fiéis.

Todo aquele que cai sabe porque caiu, e todo aquele que segue e sobre o seu caminho sabe que o faz por uma força maior do que a sua, e nada poderá impedir a sua caminhada, ainda que o matem, pois voltará ao ponto exacto onde foi derrubado.

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