fechada-para-o-invernoFechada para o Inverno, de Jørn Lier Horst

A escrita dos thrillers obedece a preceito: ação estruturada a partir de diálogos, ocasionalmente entrecortados por descrições do tempo e fisionomias, e apontamentos sobre a paisagem. Contudo, o género deixa espaço suficiente para que o autor imprima um cunho pessoal. A escrita de Horst tem essa amplitude e não dececiona o leitor mais exigente, permitindo-se apontamentos de agilidade e elegância: Um nevoeiro húmido envolvia as ruas desertas. Encontramos neste thriller a linearidade da escrita própria do formato: diálogos bem construídos, fisionomias descritas de forma precisa e breve, e abertura dos capítulos com a envolvência da ação. Horst usa a descrição dos ambientes para estabelecer a atmosfera emocional da cena: O ar era frio e cruel… Ou, ainda, na cena em que celebra o regresso de Wistling a casa, depois de terminado o périplo à Lituânia, onde nos brinda um céu azul que o avião irrompe por entre as nuvens. A profusão de personagens, que uma investigação deste tipo envolve, é acautelada com uma breve descrição biográfica, privilegiando o percurso profissional e a relação com Wisting. Como seria de antever, a maior parte dos personagens fica-se por este nível de densidade. No entanto, a lisura com que o autor o faz, assegura uma leitura sem percalços. Na nota introdutória, uma breve biografia do detetive William Wisting permite ao leitor, mesmo ao iniciado nesta saga, ficar a conhecer o protagonista.

O primeiro capítulo abre com uma morte, enquanto caem pássaros do céu (o que lhe confere um sinal de mistério exterior à trama policial). A perseguição que Wisting inicia a um suspeito termina com o detetive prostrado no chão após perder a luta corpo a corpo. O leitor fica a perceber que não se encontra perante um infalível agente da lei, mas na presença de um polícia comum a quem cabe decifrar um crime. Sobre as capacidades de perceção, necessárias à resolução dos crimes, o autor deixa claro que os superpoderes de intuição não funcionam: os mentirosos não se deixam apanhar por tiques nervosos ou alteração da sua fisionomia, a única coisa capaz de os expor eram as provas. Para início da trama policial confiemos na síntese feita por Hammer, um dos investigadores da polícia: Dois assaltantes têm uma discussão e um deles mata o outro.

Os lituanos surgem como os principais suspeitos e responsáveis pelo aumento dos crimes, em particular os que visam as casas de férias fechadas para o inverno. O produto desses roubos é vendido na Lituânia e alimentam uma economia paralela, perante a passividade das autoridades. O autor, na sequência de uma pista, leva a investigação de Wisting à Lituânia, pretexto que lhe permite afastar qualquer espectro de xenofobia. Na Lituânia, o detetive encontra um povo dizimado pela pobreza, sem esperança no futuro, incapaz de influenciar o seu próprio destino, e que se comporta como um adulto assustado.

O fecho da trama policial não é espetacular embora cumpra o preceito de surpreender o leitor com um desfecho elegante, em linha com o tom soft e realista da investigação. Para quem aprecie thrillers onde o prazer da escrita se sobreponha ao caleidoscópio da ação.

Um miasma repleto de cinzas flutuava no ar húmido.

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