A Sangue FrioA sangue frio, de Truman Capote

Em seguida, levando a mão ao boné, voltou para casa, a encetar o seu dia de trabalho, sem que lhe passasse pela cabeça que seria o último.

Este livro não é um romance no sentido clássico do termo, mas o relato vivenciado de um acontecimento verídico, escrito com rigor jornalístico e colorido por uma alma de romancista. O livro abre num tom tranquilo, detendo-se na descrição dos personagens, nos pormenores do seu dia-a-dia, nas pequenas preocupações de quem está longe de imaginar a brutalidade prestes a abater-se sobre si e sobre a sua família. Estamos perante a inigualável segurança da narrativa de Truman Capote. A descrição das fisionomias atinge uma invulgar amplitude: o tom iodado da pele, ou Eram, porém, os olhos, escuros e transparentes, como a cerveja preta vista contra a luz, que a tornavam simpática logo no primeiro olhar… Ao descrever o rosto deformado de Dick, um dos homicidas, fá-lo com precisão quase cirúrgica, sem nunca perder a elegância, rematando que, quando este se ri, a contração do sorriso fazia-lhe regressar as feições ao seu lugar normal e tornava possível distinguir nele uma personalidade menos assustadora. Os estados de espírito não ficam atrás, como quando se refere ao estado prostrado da senhora Clutter, que sofre de depressão crónica, com crises que se repetem sem desaparecer por completo: Era como que uma nuvem que pairava e podia ou não trazer chuva.

Este início, escrito num ritmo lento, maturado como uma bebida em destilação, seria fatal para a maioria dos autores, mas em Truman Capote revela-se de uma força avassaladora que prende irremediavelmente o leitor. Isso resulta da apurada pesquisa que o autor faz aos fatos relacionados com o assassínio da família Clutter, aos seus dados biográficos, e da análise das entrevistas aos amigos e familiares das vítimas e dos homicidas, bem como das notas de Dewey, o polícia encarregue de investigar o caso. A arte do romancista assegura o resto. Sempre com o imenso cuidado em se manter fiel aos acontecimentos, recria muitos dos diálogos a partir das notas que recolhe e das entrevistas. Encontramos neste livro o retrato da sociedade de Holcomb, onde o horror do crime não se pode dissociar do ambiente pacato e rural de uma aldeia do Oeste do Kansas.

Duas linhas narrativas sucedem-se, uma em torno dos Clutter e outra centrada nos homicidas, convergindo para esse momento em que, sobre a cena do crime, cai o silêncio final. Como a descrição da roupa escolhida a preceito por Nancy Clutter para levar à igreja no dia seguinte, onde desponta um vestido vermelho, feito pela própria, e que levaria posto quando foi a enterrar. Nos pormenores, Truman Capote consegue extrair uma tensão que nos remete para o vazio, para a ausência de sentido, para a necessidade de algo que explique os acontecimentos no rancho dos Clutter. Essa explicação, que nos ajude a suportar o horror, transforma-se aos olhos do leitor na força que alimenta o suspense da narrativa; o assomo de conforto que nos guie no meio da barbárie. O autor cria em nós a urgência dessa perceção e esse sentimento acompanha-nos desde o início até ao fim do livro.

No local do crime, o investigador da polícia Dewey apercebe-se de que um dos homicidas teve o cuidado de deixar as vítimas compostas, demonstrando uma certa dose estranha de ternura, o que o leva a explorar essa diferença de personalidades, onde pressente existir uma fragilidade. Quando procura quebrar Perry, fazendo-o crer que Dick havia confessado, o detetive deixa escapar um episódio que este inventara para impressionar o parceiro de crime. Quando escuta da boca de Dewey o relato de como matou um preto com uma corrente de bicicleta, só por prazer, Perry percebe que o seu amigo tinha dado à língua, e acede também a falar. Esse episódio foi decisivo para obter a confissão dos homicidas

O período que os dois homicidas passam na ala da morte, aguardando a execução da sentença – morte por enforcamento-, permite ao autor aprofundar o perfil psicológico de ambos. As cartas que Perry escreve, a relação que, apesar das limitações no contacto direto, estabelecem com os outros detidos permitem-nos conhecer melhor os dois condenados. Da relação que o autor estabelece com os homicidas nada nos é adiantado. Perry e Dick acabam por ser executados, também a sangue frio, após anos de espera e diversos recursos. O domínio da narrativa, da reconstituição dos cenários, das descrições físicas e psicológicas, e do foco do leitor, atinge um nível literário que faz deste “romance não-ficção” uma obra maior de indispensável leitura.

Claro, não podia falhar porque o plano era de Dick e desde o primeiro passo até ao silêncio final estava impecavelmente delineado.

Sobre o livro.

Anúncios