cem_anosCem Anos de Solidão, de Gabriel García Marquez.

Um prenúncio de morte abre este romance. Algures no futuro, o coronel Aureliano Buendía enfrenta o pelotão de fuzilamento enquanto recorda o dia em que o pai o levou a conhecer o gelo. A loucura é um hiato que elimina o tempo na vida dos homens.

A aldeia de Macondo foi fundada em tempos distantes, num mundo recente em que as coisas ainda não tinham nome e para as mencionar era preciso apontar com o dedo. As mais recentes novidades desse mundo são anunciadas pela trupe de ciganos, e Melquíades é o mais sábio entre eles. Homem de invulgar conhecimento, ciência e artes mágicas, será eliminado da terra por ter atingido o limite do conhecimento humano, e o primeiro a ser enterrado em Macondo. Desaparece da face da terra sem abandonar o romance. A trupe dos ciganos transporta consigo a emoção da aventura. Representam também a perda da inocência que o conhecimento do mundo acarreta, mas não constituem perigo porque não se deixam ficar e partem sempre sem impor nada. Macondo, a aldeia mais luminosa e plácida do mundo, cresce com a saga dos Buendía. Assiste ao progresso e à sua ordem feita de regras impostas, à guerra civil e à decadência que se confunde com a má sorte dos Buendía. Aí o romance perde a sua luminosidade inicial, sem que a escrita perca o brilho. A aldeia fica reduzida à casa de Úrsula, um espaço habitado por almas penadas e que a única maneira de as espantar era procurar os tesouros que tinham deixado enterrado. Um local desgarrado da realidade, só possível na excentricidade humana.

Aureliano Buendía e Úrsula são o casal fundador desta terra, um amor proibido pela consanguinidade que, como é sabido, gera filhos com rabo de porco. A extravagância que acompanha os sucessivos Buendías é algo tão espantoso como um rabo de porco. Cem anos separam esse amor e o resgate do seu pecado.

Este é um romance de mulheres fortes, que se vigiam mutuamente, e cujo riso explosivo espantava as pombas e com uma só frase podiam arrebatar, a um homem, o chão debaixo dos pés. Mulheres que seduzem até à loucura de um amor/sexo que ignora idades e deixa em estado de exaltação perpétua os ossos dos seus antepassados, como se o tempo se anulasse na vida dos homens e todos os Buendías fossem um só, unidos na mesma saga por rostos diferentes, uma engrenagem de repetições irreparáveis. Pertencem às mulheres as descrições mais inspiradas. A idade madura de Amarante é celebrada pelo autor com uma pele que começava a entristecer. E Pilar Ternera é apresentada no seu túmulo entre salmos e missangas de putas. Ou a descrição de José Arcádio, feita no feminino, realçando a sua parecença com a mãe: era lívido, lânguido, de olhar atónito e lábios débeis. Mais do que o retrato físico, é o personagem por inteiro que se nos oferece.

Esta é uma escrita tão clara que se pode analisar pelo direito e pelo avesso. A vontade do homem e o hábito do corpo, e a loucura normal do dia-a-dia a espreitar o mundo fantástico que cada um guarda dentro de si, como um segredo que julga a salvo. O tom da escrita segue os tempos, da exaltação inicial ao deserto final de desencanto que acompanha o desfecho impertinente e aziago da saga dos Buendía. Marcado pelo nascimento de Rodrigo que, num século, será o único gerado pelo amor. Aquele que cumprirá os receios da matriarca Úrsula, trazendo finalmente paz a todos os que o precederam. Esta é a história de uma estirpe de homens e mulheres, registada até aos pormenores mais triviais pelo cigano Melquíades, um século antes, num manuscrito encriptado. Sem o saberem, viveram condenados a cem anos de solidão.

Nigromanta levou-o para o seu quarto iluminado por velas de engano, para a sua cama de armar com o seu corpo de cadela brava, empedernida, desalmada, que se preparou para correr com ele como se fosse um miúdo assustado

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